Durante o Festival de Cannes, Kristen Stewart conversou com o site Vulture para falar sobre Crimes of the Future e sua personagem, Timlin. Leia:

Por volta da metade de Crimes of the Future, de David Cronenberg, Kristen Stewart coloca as mãos diretamente na boca de Viggo Mortensen e observa como se fosse um túnel escuro. É uma tentativa de sedução – ela diz que quer que ele “a corte”, depois massageia os lados de seu rosto e mergulha de língua em sua mandíbula aberta. Ele fica excitado com a parte mais clínica, mas educadamente se opõe quando a situação se transforma em algo vagamente parecido com um beijo. “Não sou bom no sexo antigo”, diz ele de modo arrependido. Em um rooftop na manhã seguinte da estreia do filme em Cannes, Stewart me conta que teve a ideia de inspecionar a boca dele durante as filmagens. “Estou orgulhosa para caralho”, disse ela. “Não contei para ninguém que faria aquilo.”

O novo sexo, como a personagem de Stewart coloca no filme, é a cirurgia. Crimes of the Future se passa em um futuro distópico próximo em que humanos estão criando órgãos espontaneamente, são incapazes de sentirem dor ou de se infectarem e estão começando a fundir-se com o ambiente sintético. Como resultado, estão todos cortando uns aos outros, alguns como um ato sexual e outros como arte performática. A Timlin de Stewart é descrita como um “inseto burocrático” no Registo Nacional de Órgãos, uma entidade governamental secreta que rastreia e controla novos crescimentos de órgãos para conter a síndrome de “Evolução Acelerada” que está tomando o mundo. Quando conhecemos Timlin, ela tem a voz estridente e trêmula, é um fantoche do governo, mas durante o filme, ela cai em um tipo de obsessão luxuriosa com Saul Tenser, personagem de Viggo Mortensen, um artista performático clandestino que está criando órgãos e removendo-os cirurgicamente no palco com a ajuda de sua parceira, Caprice (Léa Seydoux).

É uma performance esquisita e fascinante de Stewart, ficando ainda mais rica porque reflete sua própria vida como artista e um objeto de longa data de bajulação pública. A vida através do espelho que Stewart leva é ainda mais aparente em um lugar como Cannes: depois da estreia do filme na noite de segunda-feira, como tradição, um cameraman apontou suas lentes diretamente para o rosto de Stewart enquanto ela reagia à reação do público sobre o filme, transmitindo essa reação em uma tela gigante para todo o público, que então reagiu à reação dela. Na conferência de imprensa na manhã seguinte, Stewart foi cercada por fãs dentro e fora da sala de imprensa enquanto falava sobre interpretar uma personagem desesperada por um pedaço do objeto de sua própria fixação maníaca. Minutos depois do fim da conferência, encontrei Stewart – parecendo calma e elegante no estilo Cannes em um macacão vermelho da Chanel e grandes óculos de sol amarelo – para falar sobre fazer um filme sobre o consumo público enquanto é consumida pelo público.

Amei sua roupa. Como veio da conferência de imprensa e se trocou tão rapidamente?
Não me troquei, na verdade, o que é muito incomum para mim. Nunca fico tão arrumada por mais de cinco minutos.

Sim, eu a vi na festa ontem à noite e você tinha trocado sua roupa da estreia para jeans e um crop top.
Na verdade, eu tinha uma roupa que deveria trocar para assistir ao filme, e trocar para jeans depois, mas eu perdi. Fiquei com muita raiva de mim mesma. Fiquei sentada completamente sem conseguir respirar. Aquele top era muito pequeno para mim. Pensei: “Por que fiz isso comigo mesma?” Eu saí do cinema com uns cortes vermelhos na minha barriga. Combinou com o filme. Me cortei.

Então, como você acabou nesse filme?
David e eu nos conhecemos neste festival 12 anos atrás. Quando ele me ligou, ele disse: “Oi, querida, como vai?” Eu tinha acabado de ler o roteiro e tinha muitas perguntas sobre a origem dele e por que agora, porque parecia tão urgente e vital. Ele disse: “Na verdade, escrevi em 1996.” E eu disse: “Ah, legal, legal, então você é um oráculo, caralho.” Não querendo dizer que não estivemos nesse caminho por um bom tempo, em direção a uma certa destruição. Sem querer soar muito pessimista, mas é verdade. O filme se passa em um futuro que está em ruínas e não estamos muito distantes.

Não, é verdade.
Fiquei muito animada para interpretar a Timlin porque acho que ela é… mesmo que eu só tenha alguns minutos para entrar e contar uma história, é muito divertido ter apenas três cenas. Se você não acertar, vira um papel de parede. Timlin é tão fechada, auto oprimida, quer ser boa no trabalho dela e totalmente representa rigidez do governo em que estão vivendo. E ela passa por um despertar em um segundo. Uma grande declaração do filme é que a arte triunfa. Salva. É algo que não morre porque é algo que deixamos para trás, está fora do corpo, mas parece reflexivo. Então, foi muito divertido libertar meu lado esquisito. Raramente me pedem para interpretar personagens estranhas assim. Geralmente é tipo: “Venha interpretar a mulher forte enfrentando adversidades.” Eu penso: “Foda-se isso!”

A voz e maneirismos da Timlin… isso estava vindo diretamente de você ou foi algo discutido com David?
Realmente acho que ele escreveu dessa forma. Não sei se ele fez alguma referência para algum tipo de voz estridente, mas ela foi descrita como um pequeno gnomo esquisito e burocrático. Então, pensei: “Ok, acho que ela fala dessa forma.” Tentei mudar minha voz ao longo das filmagens. De início, estava completamente presa e, quando comecei a ficar obcecada por esse artista, tentei falar de forma mais completa para que ele pudesse achar sensual ou algo assim, tentando fazer uma imitação da Caprice. Léa Seydoux, ela é uma propaganda viva de sensualidade. Então, eu estava tentando ser ela no final.

Se não foi isso, que tipo de direção David te deu?
Muito pouco. Massagens pequenas e gentis. Tipo, se ele sentia que algo não estava certo, ele dizia: “Não faça isso. Não vá por aí. Não está muito certo.” Ou, se ele gostava de algo, dizia: “Está no caminho certo! Vá mais fundo!” Foi um apoio sutil. E ele nunca fazia mais de dois takes de nada, o que é muito assustador porque você pensa: “Calma!” Mas ele só quer seu primeiro instinto. Ele não quer que você se force. Há algo sobre a força ou pressão que é desonesto. E ele também não tem mais paciência. Ele diz: “Nope! Acabamos.”

A cena em que você coloca a mão na boca do Viggo como uma forma de seduzi-lo é tão estranha e boa. Estava no roteiro ou vocês criaram juntos?
Então, aquilo não estava no roteiro. Estou orgulhosa para caralho. É minha parte favorita do filme – pelo menos da minha parte no filme. No roteiro, era descrito com um “pas de deux”. Eles estavam meio que dançando juntos. E eu levei de forma muito literal, então fiquei com medo naquele dia. Pensava: “Como vamos aprender esse pas de deux?” E havia tanto diálogo. São coisas muitos estranhas de falar e, portanto, não são as mais fáceis de lembrar. O vocabulário em si era muito rico.

Então eu estava com medo! Eu disse: “Não vou conseguir dançar e continuar conectada com você.” Mas acabou sendo apenas eu correndo atrás do Viggo na sala. E no roteiro diz que em algum momento eu me encontro “entrelaçada com ele e enfio a língua em sua garganta”. É tão difícil se aproximar de alguém por quem você está obcecada. Minhas mãos tremiam porque só fizemos a cena uma vez. Então, pensei: “Se quero ser a Caprice, quero que ele me corte e quero cortá-lo, quero chegar o mais perto possível de sentir algo… Se eu não puder fazer isso, talvez possa deslocar a mandíbula dele, chegar o mais perto possível de sua cabeça e examinar a anatomia verdadeira de sua boca.” Então, não contei para ninguém que faria isso. Apenas disse: “Tudo bem se eu tentar fazer uma coisa e você me acompanhar?”

Massageei a mandíbula dele por um segundo para abri-la e então fui com tudo, tipo: “Como consigo mais de você?” E não precisamos fazer de novo. David entrou e disse: “Bem, esse foi um take extraordinário para caralho!”

Qual foi a reação do Viggo quando você fez isso?
Nos divertimos muito. Porque estávamos ambos um pouco intimidados com a cena, quando o David entrou e disse aquilo, literalmente olhamos um para o outro, tipo: “Acho que acabamos!”

Quando conversei com o David ontem, me surpreendi com o quanto ele é normal e gentil, o que ele diz acontecer bastante. Você se surpreendeu com ele no set?
Praticamente desde o início, sim. Até mesmo a forma como ele respondeu as perguntas na conferência de imprensa. A resposta mais simples vem de um lugar de sabedoria. Você não precisa complicar certas ideias. Tipo, “o corpo é uma realidade”. No começo, eu estava tentando enfiar esse conceito na minha cabeça: o que significa para mim e para o mundo, em cada nível? Mas ele disse: “Eu filmo pessoas.” É isso! É um corpo. Tudo isso é surpreendente. São conceitos realmente elevados, mas ao mesmo tempo nem tanto.

O relacionamento dele com a dor é um tanto admirável. Sinto que compartilhamos um certo instinto de gostar da dor. Não de um jeito masoquista, mas a dor anda de mãos dadas com o prazer. E não estou nem falando de forma apenas sexual. Digo que se você pode gostar da natureza excruciante de ter um corpo, significa que você também é capaz de aceitar as partes boas de uma forma profunda. Ele tem uma abordagem destemida e tolerante à vida que é contagiante. Parece que é seu pai ou avô dizendo: “Olha, estamos nisso juntos. E não há outra forma de sair daqui. É isso. [Ela bate nas coxas.] Então… aproveita.” É profundo e assustador. Mas há algo muito bonito nessa filosofia.

Eu sei. Eu perguntei se ele já tinha feito terapia e ele disse: “Não!”
Caralho. Você ficou tipo: “Estamos todos na terapia!”

Você disse na conferência de imprensa que o elenco voltava para o hotel no final do dia e dizia: “Que porra estamos fazendo?” Como eram essas conversas? O David chegava em alguma conclusão?
Acho que nunca chegamos em nenhuma conclusão. A parte mais legal de fazer um filme é que você descobre o motivo pelo qual está fazendo durante o filme ou depois. Eu tinha lido Sapiens: Uma Breve História da Humanidade e Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã [livros do autor israelense Yuval Noah Harari] antes de fazer esse filme, então eu já estava tentando entender por que penso do jeito que penso. Tipo, eu sou um completo produto do meu ambiente. Se eu fosse do Kentucky, talvez fosse pro-vida. A forma como os humanos chegaram aqui é uma loucura. Então, pensei: “Esse filme é sobre basicamente tudo o que você já considerou.” Como chegamos aqui? Somos capazes de mudar? Há alguma forma de nos unirmos?

A única maneira de como chegamos aqui é através de mitos compartilhados. Você acredita em uma coisa, portanto, é verdade. A única coisa que nos mantém unidos como sociedade é que contamos mentiras uns para os outros e falamos: “Concordo! Baby, estou com você. Acredito em você.” Nós inventamos tudo isso! Dinheiro, Deus, tudo. Quando digo Deus, quero dizer sexo, poder, arte, tudo isso. São palavras intercambiáveis para mim. Então, sim, tínhamos esse tipo de conversa o tempo todo. O que é preciso para fazer arte? O que toma de você e o que te devolve? Todos são artistas ou existem apenas algumas pessoas que são obrigadas a externalizar sua vida interna? Existem pessoas que só querem estar próximas disso? Ou tudo o que fazemos é arte? Tudo o que fazemos é político? Tipo, agora, o que estamos fazendo talvez seja arte. Quem está definindo o que é isso, porra? Quem é o dono? Faz total sentido que a arte seja radicalizada porque assusta as pessoas. Tudo isso é o que falávamos o tempo todo.

Então, conversa casual!
Sim! Também é muito engraçado. Eu li o roteiro e amei, mas não achei engraçado. Depois, no set, não tinha como não rir de tudo. O que David diz é realmente verdade: algumas das coisas mais difíceis que você faz, você dá risada. Porque essas emoções são paralelas.

Quando eu estava na premiere na noite passada e na conferência de imprensa hoje, as pessoas estavam me empurrando para tirar fotos de vocês. Fiquei chocada como tudo isso se relaciona com o filme, sua personagem e essa ideia de um fandom bajulador. Estou interessada em ouvir sobre sua experiência de estar aqui e ter as câmeras no seu rosto em relação à personagem que você interpreta.
Sempre fico dividida entre querer ser exibicionista, estar em público, aberta e mostrando tudo sobre mim, e ser protetora. Pensar que você é mal interpretada é super narcisista porque as pessoas estão apenas tendo suas próprias experiências com o que você está mostrando. Mas eu tenho uma aversão física que não consigo controlar. Eu estava no PGAs e estava me divertindo muito. Steven Spielberg estava atrás de mim! Era um lugar cheio de pessoas que tipo… eu era como uma criança em uma loja de doces. Então, esse cara com uma câmera fez assim [imita uma câmera no rosto]. O que é completamente normal. Sou atriz e estou em uma premiação. Tudo bem. E meu corpo literalmente fez assim [levanta os dois dedos do meio de forma sarcástica]. Eu não entendi. Pensei: “Kristen…” Mas não era como se eu estivesse com raiva por ele ter tirado minha foto. Foi apenas uma reação física estranha e imediata por estar sendo observada em um momento em que não esperava.

Em Cannes, só preciso focar nas coisas boas. Você pode olhar para as merdas ou pode olhar para as coisas bonitas do mundo. Então, pensei: “Ok, foca no David.” Esse filme é tão pessoal para ele. Precisei assistir ao filme para perceber que Saul Tenser é o David. Ele está escavando esses órgãos e tossindo-os, pensando: “Por quanto tempo vou poder continuar a fazer isso?” E eu pensei: “Duh, Kristen. Óbvio que é ele.” É um testamento para tudo o que ele já fez. Ele disse na conferência de imprensa que tudo o que faz é íntimo, mas esse filme parece pessoal de um jeito novo. Então, foquei nisso.

Depois, a câmera focou em mim e eu pensei: “Cara, volta para o David!” Também, por que tão perto? Minha nossa! Só um pequeno zoom seria ótimo. É literalmente um zoom microscópico. Fico tipo: “Sai!”

Como você se sentiu depois da premiere?
Antes dos créditos rolarem, estava um silêncio. Eu pensei: “Oh, as pessoas não sabem o que sentir. Não sabem se devem aplaudir ou não.” Parecia aquela porra do momento do Will Smith em que todo mundo pensou: “Sim? Não? Não. Ok, na verdade, não!” Tipo, as pessoas precisam olhar para a esquerda e para a direita para saber se batem palma? É muito para digerir de início, eu acho. Mas, para mim, o filme é simplesmente tão doce. Sim, estamos indo em direção a uma certa morte, com certeza. Mas há uma delicadeza no filme que, mesmo nas coisas nojentas, fiquei encantada com ele. Todos estavam falando sobre as saídas no meio da sessão e como foi intenso, mas eu estava: “Não é intenso! É muito bonito.”

Há um efeito de distanciamento e uma elegância nele.
Sim. É meio como visualizo o interior do meu corpo. Não é real. Parece tão delicado e sensível.

Existe uma parte no filme sobre uma “competição de beleza interior” e tanto você quanto seu colega de trabalho, Wippet, estão obcecados para Saul Tenser participar, inicialmente em nome da “beleza”, mas também pelo “poder de popularidade” dele. Quase parece uma crítica às premiações e festivais como Cannes. É essa a sua experiência em ser “consumida” como uma celebridade?
Parte de mim realmente ama isso – o romance que David escreveu chamado Consumed. Nós queremos digerir uns aos outros. É o mais perto que você pode chegar de alguém. Há partes ruins e as pessoas se perdem nisso. É legal quando você não se perde. Se você realmente consegue ser, tipo, presente no seu desejo e obsessão, é uma coisa. Mas deixar isso cair no esquecimento? Wippet é tão obcecado com o poder de popularidade de Saul e, naquele momento, ele realmente sabota todo o trabalho: “Oh, a beleza, a beleza, não consigo me afastar!” Eu penso: “É a beleza ou você está entrando em um frenesi por conta da popularidade?”

Você sabe claramente quais atores gostam de atuar e quais só gostam de ser famosos. É tão óbvio, tão claro. Por que não dizemos logo? Digo, eu falo, mas as pessoas que só querem estar no centro das atenções poderiam dizer: “Eu amo! É por isso que comecei a trabalhar nisso.” Em vez de falar: “Oh, é a arte!” Eu penso: “É mesmo?”

Mas, novamente, o que estou fazendo é sentar aqui e tentar definir o que é arte para outras pessoas. O problema sobre fazer essas entrevistas por 20, 30 minutos, é que você começa a pensar: “Tudo o que eu disse está errado. Na verdade, sinto o oposto de todas as formas.”

Você está tipo: “Desconsidere tudo isso.”
Eu fico correndo atrás do meu próprio rabo.

Mas você parece ter desenvolvido um entendimento e relacionamento saudável com tudo isso, estando nesse mundo – e em Cannes – por tempo suficiente para chegar em um nível de igualdade. É uma avaliação justa?
Sim. Não me deixa mais com tanto medo porque nunca nada de ruim realmente acontece. Mesmo quando o pior acontece, você pensa: “Ah, estou bem.”

Fonte | Tradução: Equipe Kristen Stewart Brasil