Kristen Stewart é capa da edição de inverno da revista Document Journal e foi entrevistada pelo diretor de seu próximo filme, Crimes of the Future, David Cronenberg. Eles falam sobre Spencer e sobre a ficção científica que será lançada no próximo ano. Confira:

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O teórico radical Régis Debras o descreveu como “um milagre em dobro, um casamento impressionante do moderno com o antigo, como um poema de Apollinaire ao ar livre.” Para o antropologista Marc Augé, o espetáculo televisionado não foi nada menos do que um trabalho de “grande arte”, feito sob medida para um público britânico recém libertado da austeridade conservadora para os braços da reviravolta blairista sonora. Do outro lado do Canal da Mancha, o documentarista Mark Cousins examinava o funeral televisionado da princesa Diana através das lentes da mudança em relações territoriais: escrevendo ao lado de Debray e Augé para o livro After Diana, publicado pela Verso Books em 1998, Cousins lembra da ovação em massa que Earl Spencer recebeu de um público em luto assistindo ao funeral privado em televisões fora da Abadia de Westminster. Enquanto Spencer apontou que os tabloides britânicos transformaram sua irmã, nomeada em homenagem à deusa da caça, na “mulher mais caçada do mundo moderno”, as palmas estrondosas foram capturadas pelas câmeras do lado de fora da Abadia e transmitidas para os criadores do público nas mesmas telas em que estavam aplaudindo.

O drama ficcional de Pablo Larraín, Spencer, estrelando Kristen Stewart como a princesa Diana no meio de uma crise existencial durante três dias em 1991, oferece pouco dessa ostentação emotiva. A performance de Stewart é uma externalização do mundo interno de Diana enquanto ela passa pela cultura dos paparazzi e convenções históricas para confrontar uma verdade aterrorizante e empolgante da condição humana: somos responsáveis por criar nossa própria realidade. Dentro dos confins da casa do interior da família real em Sandringham, onde os jantares de Natal acontecem com precisão militar, a loucura começa a se parecer com resistência e o mal-estar físico é sintoma de uma libertação iminente. (Em uma das primeiras de muitas cenas em refeições, Stewart devora colheradas de pérolas gigantes e sopa verde-musgo antes de vomitar no vaso sanitário de um banheiro palaciano, evocando as epifanias estonteantes de Roquentin sobre o absurdo da existência em A Náusea de Jean-Paul Sartre.)

Larraín escolheu Stewart após vê-la em Personal Shopper, de Olivier Assayas, uma história de fantasmas similarmente introspectiva sobre luto. Mas em Spencer, é a exuberância de Diana (e de Stewart) que prevalece, a permitindo transcender o destino, tragédia e realidades construídas em livros de história e jornais. “Foi muito bom para mim que não precisei acertar em tudo,” diz Stewart, “porque fazer justiça a ela seria ter certeza de que ela estava viva para caralho.”

Stewart agora está em pré-produção para sua estreia como diretora, uma adaptação da biografia de 2010 de Lidia Yuknavitch, The Chronology of Water, que ganhou seguidores dedicados por sua abordagem franca sobre sexualidade, violência e transformação. Mas ela será vista em seguida em Crimes of the Future (2022), um suspense de ficção científica dirigido pelo lendário cineasta canadense, David Cronenberg. Cronenberg teve sua cota de confrontos com os tabloides ingleses. Sua adaptação da obra pós-moderna de J.G. Ballard, Crash – Estranhos Prazeres, causou pânico moral quando estreou em Cannes em 1996, um ano antes da morte da princesa Diana, diagnosticando profeticamente as perversões psicossexuais da cultura ocidental nos últimos momentos do século 20: celebridades e acidentes de carro. Cronenberg vem sendo aclamado há muito tempo como um oráculo das fusões visionárias de carne e máquina que projetou em clássicos cults como A Mosca, Scanners e Videodrome. Mas o diretor insiste que estava apenas ilustrando o inevitável quando previu o YouTube, transumanismo e a tecnologia de células-tronco.

O cinema filosófico de Cronenberg deve mais aos pensamentos de Sigmund Freud, Edmund Husserl e René Descartes do que aos efeitos especiais. Ele mina as profundezas da condição humana com a audácia analítica de um biotécnico. “A essência em se entender com que você é, é se entender com seu corpo”, diz Cronenberg. “Há uma interpenetração completa entre o interior e o exterior do seu corpo. De um jeito estranho, eu acho, Crimes of the Future é bem literal quanto a isso.”

Kristen Stewart: Acho que você consegue nos ouvir agora, posso sentir.
David Cronenberg: Só estou te ouvindo vagamente, não sei o porquê.
Kristen: Bem, merda! Você quer me ligar? Estou tentando dar uma de MacGyver nessa situação. [Digitando] David, talvez você deva me ligar porque não estamos te ouvindo.
David: Consertei. [Risos] Obrigado pela sugestão, de qualquer forma.
Hannah Ongley: Bem, David, obrigada por se juntar a nós. Sei que você está muito ocupado com a pós-produção de Crimes of the Future.
David: Estou passando muito tempo com a Kristen todos os dias, mas na sala de edição. É um relacionamento estranhamente íntimo porque você se torna tão sensível, como diretor, a cada hesitação, cada movimento corporal, cada inflexão vocal. Então você tem esse relacionamento estranho com um ator que não sabe que você está fazendo isso.
Kristen: Sempre ouvi que David tem a precisão mais gentil – o que foi confirmado quando trabalhei com ele. Fiquei tão impressionada com como foi fácil estar lá, sentir e descobrir coisas sem essa pressão adicional de: “Puta merda, estou trabalhando com David Cronenberg. Ele fez alguns dos melhores filmes do nosso tempo!” David disse para mim no telefone, quando falamos sobre Crimes of the Future pela primeira vez: “Vai ser um festival de amor.” E foi desse jeito.
David: Escrevi esse roteiro há 20 anos, então foi quase como um roteiro que outra pessoa escreveu. Tirando os papéis que escalei em Atenas, com atores gregos, nunca ouvi o diálogo antes. Ouvir Kristen começar a dizer as falas desse personagem, foi um choque! Eu pensei: “Oh, meu Deus, essa é uma criatura real – fora de controle, no sentido de que possui vida – e está nascendo bem na minha frente.”

Como te disse, Kristen, você foi uma revelação para mim. Você pode ver um ator e assisti-lo, mas ainda pode não saber como é estar no set com essa pessoa. Algumas vezes é uma coisa difícil porque você pode não receber o que esperava [risos]. Acho que nunca disse: “Escalar esse ator foi um erro”, mas quando você consegue uma Ferrari em vez de um Volkswagen, é bem legal.
Hannah: Você estava procurando por uma Ferrari durante 20 anos?
David: Você sempre está. Você procura por poder, carisma e complexidade – apenas coisas interessantes e inesperadas. Quando você consegue tirar isso de um artista na sua frente, é muito animador. E eu fiquei muito animado de trabalhar com a Kristen.
Kristen: Estou procurando por uma Ferrari agora. Pela primeira vez na minha vida, estou escalando elenco. Na verdade, é engraçado porque hoje receberemos a primeira leva de testes. Estou nervosa por elas! Minha nossa, gravar um vídeo para algo e então meio que jogar ao mar e esperar que outra pessoa encontre.

Isso vai soar óbvio, e espero não parecer banal, mas as pessoas por quem você se atrai… algumas vezes, você vai conseguir articular o motivos e outras, não. No final, você sempre meio que testa seus instintos enquanto está fazendo o filme e pensa: “Aquele pensamento ou suspeita estava correto? Eu estava certa?” É um pouco raro – pelo menos para mim, felizmente – ser enganada por trocas narrativas que pegam algo de você e não colocam nada de volta. Fui enganada uma ou duas vezes, e olho para aquelas experiências e penso: “Meu Deus. Merda, não acredito que me deixei acreditar que poderíamos fazer algo juntos.”
David: Acho que, como diretor isso pode vir com a experiência. Você sabe como reagirá, sabe o que pode te atrair de modo falso.
Kristen: Parte de mim está animada para ver o que elas fazem em seus próprios pequenos microcosmos, vê-las como uns curtas. É quase como um experimento legal ver o que alguém faz. Uma experiência tão vulnerável! Obviamente, venho de fazer testes pessoalmente e realmente conseguir afetar as pessoas, conseguir uma impressão que não está apenas incorporada no material. Também, essas pessoas não leram o roteiro inteiro e, tipo, é muito grosseiro. Eu digo: “Diz pra elas que não precisam se masturbar!” Mal posso esperar para ver como as pessoas se revelarão.
David: Bem, quando se trata de testes em vídeo, primeiramente… você não consegue não notar a cozinha e se tem louça na pia ou não. Então, o cachorro passa pela câmera, e…
Kristen: [Risos] Oh, se eles têm cachorros, isso é bom porque significa que são doces. Sim, você precisa olhar os detalhes.

O que direi sobre seu processo – que é alucinante, considerando que você se cansou de gravar em filme e não quer voltar – quando você grava, ainda parece que está rolando o filme, o que acho que algumas pessoas perdem a noção com câmeras digitais. Eles filmam o tempo todo, tentam gravar o máximo que podem. O que é importante é preservar o catalisador: os momentos em que você pode sentir o zumbido do filme girando. Faz com que as pessoas fiquem atentas de um jeito que infunde a porra do filme com magia, o sentimento de um raio em uma garrafa, e se você não pegar a bola curva, você vai falhar e o filme vai ser uma merda. Esse sentimento de imediatismo, e todos juntos isolados em um milésimo de segundo, é algo que você consegue em filme, mas definitivamente estava presente no set filmando em digital.
David: Um dos assistentes de câmera disse para mim: “Sabe o que eu estou realmente adorando no seu set?” Eu respondi: “O que?” E ele disse: “Você diz “corta’”. Respondi: “O que? É claro que digo “corta”. Digo “ação” e depois “corta’”. [Risos] Então ele disse: “Não! Os cineastas mais novos não dizem “corta”. Eles continuam filmando.” É claro, antigamente era caro continuar filmando. Agora não é.
Hannah: David, você escreveu Crimes of the Future 20 anos atrás. Você revisou o roteiro desde então?
David: Não, nem um pouco. A única coisa que precisei reescrever, principalmente, foi com a mudança de locação, nada com os personagens ou diálogos. Na verdade, devo confessar que algumas cenas não tinha lido há 20 anos. Fiquei um pouco chocado. Pensei: “O que esse roteirista louco estava fazendo? Como ele espera que eu faça isso funcionar?”

Para mim, sempre houve um elemento de arte encontrada no cinema. Em particular, havia muitas coisas em Atenas e não estive lá desde 1965. A primeira cena do filme é um navio afundado de lado. Nós o descobrimos! Eu estava procurando por locações, vi esse navio e pensei: “Isso precisa estar no filme.” Hitchcock – quem os jovens cineastas costumavam idolatrar, não sei se ainda fazem isso – tinha tudo mapeado. Ele tinha tudo em storyboards e dizia que as gravações do filme eram como “triturá-los em máquina”. Em outras palavras, não era emocionante para ele. Isso seria horrível para mim. Então, todos os dias no set eram dias de descobertas.
Hannah: É interessante, porque mais cedo você estava falando sobre a relevância cultural de Crimes hoje em dia, embora seja uma ficção científica que você escreveu em 1996. Kristen, seu novo filme, Spencer, se passa nos anos 90 e a princesa Diana faleceu em 1997, quando você devia ter uns sete anos de idade? Como foi voltar para aquela época ou pesquisar sobre ela?
Kristen: Tenho uma memória muito desenvolvida de como os adultos se sentiram quando eu tinha sete anos. Me lembro de ver imagens das flores fora do Palácio Buckingham. Obviamente, não entendia completamente o que estava acontecendo e o impacto da perda, mas vi o resultado. Esse luto em massa foi muito impactante para uma criança de sete anos.

É engraçado, nosso filme é uma destilação de sentimento. Toda a autenticidade que tentamos infundir no filme foi tonal. Não afirmamos saber nada novo. É tão diferente das biografias autoritárias. É meio acumulativo, por osmose. Foi um sonho que começou com Pablo imaginando três dias em que essa mulher está prestes a fazer uma decisão meio que em um precipício. Fazendo toda a pesquisa e querendo incorporar o máximo que pudéssemos para parecer verdadeiro com quem ela era, nós lemos tudo o que pudemos e esquecemos. Acho que você só precisa confiar no processo e saber que essas coisas, de alguma forma, encontram o próprio caminho no seu corpo.

Acho que o mais legal sobre a Diana, a impressão mais inegável que tenho sobre ela, é que ela era muito imprevisível. Toda vez que vejo uma foto ou entrevista, sinto que não faço ideia do que vai acontecer. Foi realmente bom para mim que não precisei fazê-la completamente correta porque fazer justiça a ela seria ter certeza de que ela estivesse viva para caralho. Todas suas habilidade empáticas, seu ar desarmante e casual – tudo o que faz parecer que ela está protegendo algo muito delicado e frágil. Ela é transparente como ninguém.
Hannah: Kristen, eu adoraria ouvir você falar sobre os figurinos de Spencer. Acabei de assistir Personal Shopper outro dia e fiquei chocada como sua personagem parece ter um relacionamento parecido com as roupas – quando ela está experimentando as botas de salto alto e o aspecto quase aprisionado de seu guarda-roupa, no sentido que a faz sentir tanto confiante quanto humilhada.
Kristen: Primeiramente, somos seres pequenos com camadas. Acho que cada personagem revela aspectos que podem ser mais surpreendentes para você, ou fora de seu padrão comum, a não ser que você a história mexa com você para encontrar essas coisas. É uma loucura – todo mundo pode mudar a cor do cabelo, e várias pessoas mudam. É marcante como isso muda a forma como você se sente. É um lugar realmente interessante para viver como atriz – sempre imaginando o hipotético. Isso parece óbvio, mas existem versões infinitas de você. E digo isso para todo mundo, não só para atores. As roupas definitivamente permitem que você encontre essas outras versões.

Nos filmes que você mencionou, Diana e a menina que interpretei em Personal Shopper estão se sentindo perdidas em termos de quem são e quanto de espaço podem ocupar. Ambas estão vindo de perspectivas diferentes – uma de perda extrema e outra de rejeição e isolamento. Você começa a perder a cabeça, você não tem nenhuma razão para nada, portanto, não sabe quem é. Então, as roupas em Spencer são uma grande coisa. Por mais que as roupas de Diana fossem lindas, elas também pareciam frágeis, ridículas e constrangedoras. Mesmo as mais bonitas, as que deviam fortalecê-la – algumas coisas, eu apenas pensava: “Que merda ridícula”. Era uma completa projeção, mas tenho certeza de que, algumas vezes, ela pensava: “Por que estou usando essa merda de chapéu?”
David: Posso fazer uma pergunta? O sotaque… De uma forma, ele é como um figurino porque também força você a se tornar uma outra versão de si ou outro personagem. Você tinha algum professor que estava lá o tempo todo?
Kristen: Sim. [William Conacher] foi como um milagreiro, para ser honesta. Coincidentemente, ele fez todas as Dianas – trabalhou com Naomi [Watts] e Emma [Corrin] em The Crown – então ele tem conhecimento. Para mim, ele é muito mais do que um professor. É um artista em sua própria forma e Pablo o deixou entrar bastante no processo. Ele cresceu no Reino Unido e tem uma perspectiva muito interna, em termos de fazer parte daquela cultura, diferente de nós. É como aprender a dar cambalhota. Se você tem tempo, seus músculos possuem a habilidade. Tivemos três ou quatro meses para fazer isso ser natural. Dito isso, eu treinei muito o diálogo. Acho que improvisamos somente uma cena no filme e foram as crianças. Eu não fiz ADR [substituição automática de diálogo] para essa merda!

Deixando o sotaque de lado, o jeito que ela fala é obviamente reconhecido como muito particular [risos]. Há tantas camadas nela que, na superfície, não combinam. Ela é essa tensão constante, um cisne livre da restrição e com borbulhas de exuberância. Foi uma das performances mais físicas que fiz. Eu chegava em casa todos os dias, corria pelo quarto de uma maneira eufórica e sobrecarregada, desmaiava e dormia até ter que ir trabalhar novamente no outro dia. Foi triste porque esses três dias foram infernais. Mas ela foi uma personagem tão estranhamente alegre de interpretar que eu voltaria e faria novamente, e você não diz isso sobre tantas outras coisas. Eu me diverti para caralho interpretando-a.
Hannah: Você estava falando sobre ela como alguém que parecia estar no precipício – isso é algo que também te agradou na escrita de Lidia Yuknavitch? The Chronology of Water parece explorar esses estados nos meados de possibilidades abertas.
Kristen: Acho que a única razão para transformar um livro em um filme é porque você basicamente quer possui-lo. Eu quero ler em voz alta em público, quero compartilhar com outras pessoas em tempo real. A biografia de Yuknavitch descreve o quanto foi difícil para ela encontrar a voz que transmitiu ao longo da vida – diante de ter um corpo feminino em um mundo onde a violência e agressão são direcionadas a ele o tempo todo. O quanto é difícil colocar em narrativa sobre o medo e dor novamente é tão bem articulado, e isso me abriu.

Também, nunca tivemos uma história de amadurecimento sobre uma mulher que parece real para mim. Assistimos meninos gozarem em meias o tempo todo nos filmes. Isso foi algo que assisti quando tinha, tipo, 12 anos de idade. American Pie é um dos meus filmes favoritos, mas meninas nunca foram permitidas terem corpos e quero muito assistir isso.
Hannah: Ambos parecem muito investidos em explorar o corpo humano durante estados cruciais de transformação. David, como diretor, como você usa o corpo não só para expressar as experiências internas e emoções de um personagem, mas também para refletir sobre transformações culturais e sociais?
David: Para mim, isso começa além da sociedade. Penso em mim mesmo como um existencialista. Não acredito na vida após a morte, não acredito em Deus. Para mim, o corpo é o que somos. Somos seres físicos. A essência em se entender com o que você é, com o que a condição humana é, é se entender como o corpo, e é claro, isso não é em um vácuo. Você é um corpo entre outros em uma sociedade, uma cultura, um mundo, e assim vai. Há uma completa interpenetração entre o interno e o externo do seu corpo. Acho que, de uma forma estranha, Crimes of the Future é muito literal sobre isso.
Kristen: [Risos] Extremamente.
David: [Risos] Sim, extremamente. Então, esse é só meu entendimento da condição humana. Envolve questões de sexualidade e seu lugar na sociedade, e isso, é claro, envolve identidade de gênero e tudo mais. Mas começa com a realidade do corpo. É o que nós somos e, quando o corpo acaba, nós acabamos. Não estamos mais aqui. É difícil para uma criatura sensível como o ser humano imaginar a inexistência, mas para mim, parte do processo de se entender com o seu corpo é a inexistência.
Hannah: Seus primeiros filmes foram muito prescientes em investigar a junção do homem com a máquina. Você vê as tecnologias de aprimoramento humano como uma forma de expressão criativa?
David: No início da ficção científica nos anos 40 e 50, a tecnologia sempre foi uma ameaça. Era algo que vinha do espaço sideral, algo ameaçador. Para mim, sempre foi óbvio que essa tecnologia somos nós mesmos. É uma extensão do corpo humano, para começo de conversa. Você tem uma pedra, um porrete – é uma extensão do seu pulso – e por aí vai. Então, olhando para a tecnologia, você descobre muito sobre o mais íntimo do ser humano. É uma reflexão do que somos e o que somos. Mesmo algo tão óbvio quanto a internet revelou coisas que provavelmente sabíamos há muito tempo sobre as variedades dos seres humanos – sua raiva, sua fúria, sua capacidade de ser perverso.
Kristen: Se você se afastar completamente e olhar para nós como se estivesse olhando para uma colmeia ou algo assim, não há nada inorgânico. Conseguimos. Olhe para todas as coisas estranhas que os insetos fazem. Se tropeçássemos em, sei lá, uma sociedade de formigas, tudo o que elas fazem é delas. Se você se afastar dos seres humanos, é a mesma coisa. Se estamos usando essas coisas para nos matar ou para sustentar nossas vidas é uma conversa mais difícil, mas concordo com você sobre a tecnologia ser uma extensão de nós mesmos.

Fonte | Tradução: Equipe Kristen Stewart Brasil