Jacqueline Durran, figurinista de Spencer, e Kristen Stewart conversaram com a revista Vogue sobre o vestuário da Princesa Diana no filme e sobre o vestido da Chanel em destaque no pôster. Leia:

Todo mundo conhece a Princesa Diana – ou acham que conhecem. A realeza, que completaria 60 anos esse ano, permanece um objeto de fascinação entre o público e artistas. Após capturar a luta privada de Jacqueline Kennedy Onasis depois do assassinato de seu marido em Jackie, de 2016, o diretor Pablo Larraín direcionou sua atenção para a história de Diana. Seu filme, Spencer, oferece uma versão ficcional da princesa, interpretada por Kristen Stewart, em um ponto de virada durante o feriado anual de Natal da Rainha na Casa Sandringham em Norfolk, Inglaterra. Os três dias, desde a véspera de Natal até o dia após o feriado, amplia os muitos problemas na vida pessoal de Diana. Sob a vigilância da corte dos Windsors, presa em um casamento fracassado e dita para “manter as aparências” enquanto luta contra um distúrbio alimentar, ela está longe dos contos de fada.

Larraín enquadra seu filme como uma fábula, explorando o lado obscuro da monarquia sem evitar a fantasia e beleza que mantém o sistema funcionando. A vida de Diana pode estar desmoronando, mas ela ainda parece como uma princesa e está rodeada de luxo. Esse contraste é parte do que torna o filme poderoso. Criar um figurino do alegórico Windsor significava que Larraín, a figurinista Jacqueline Durran e Stewart teriam que estar na mesma página. Felizmente, eles tiveram a ajuda de um gigante da moda: Chanel. “Foi uma colaboração total a cada passo”, compartilhou Stewart via email. “Estávamos juntos nessa: Pablo, Jacqueline, Chanel e eu. Foi muito íntimo.”

Chanel abriu seus arquivos para a produção, emprestando e recriando peças vintage para Stewart usar no filme. Esse nível de acesso permitiu que Durran aumentasse o clima de luxo que Larraín e o designer de produção, Guy Hendrix Dyas, criaram. “Em termos de estilo e glamour, a colaboração deu ao filme algo que não teríamos de outro jeito”, ela disse. “As peças da Chanel adicionaram àquela aura que Diana tinha como princesa, então foi uma combinação incrível nesse aspecto.”

Há centenas de fotografias e artigos sobre Diana para pesquisar, mas a riqueza de informação era uma via de mão dupla. “No começo, foi uma situação intimidante porque havia tantas imagens dela”, diz Durran, que focou sua atenção em fotos tiradas entre 1988 e 1992. “O que eu queria achar era a lógica por trás de suas escolhas e as peças-chaves que você a vê usar durante aquele período. Certos elementos se repetem: bloco de cores, botões dourados, lapelas contrastantes, suéteres de gola alta e jeans de cintura alta ligeiramente cortados e escarpins.” Entender os princípios básicos de Diana foi crucial. “Eu precisava estabelecer um contraste entre as roupas formais e restritivas que ela usava durante sua vida “oficial” e o jeito que ela se vestia quando podia ser ela mesma”, diz Durran. “Para contar essa história, você tinha que ver a diferença verdadeira entre essas roupas.”

Para isso, Durran usou uma série de achados nos arquivos para montar ambos os visuais de Diana. Stewart usa um casaco de tweed vermelho da coleção Patrimoine ready-to-wear do outono de 1988 quando Diana está cercada por paparazzi, vestidos de veludo preto das coleções de 1983 e 1988 e uma série de acessórios vintage. Algumas peças modernas também aparecem, Stewart usa uma saia do look 46 da coleção haute couture da primavera de 2020 de Virginie Viard em uma cena.

Chanel tinha um lugar especial no guarda-roupa de Diana. Uma fã de seus ternos clássicos e bolsas acolchoadas, ela usava sua coleção nos dias de folga e enquanto executava seu papel como a Princesa de Gales. Stewart achou as seleções de roupas de Diana sugestivas. “Em certas fotos de Diana, parecia que outra pessoa havia a vestido”, ela diz. “Mesmo se a roupa é bonita, parece que ela está aprisionada. Enquanto fazia minha pesquisa, notei que sempre que Diana usava Chanel, ela parecia ela mesma. Quando ela parecia poderosa, com frequência, ela estava usando Chanel.” Stewart incorporou a observação em sua performance. “Quando você assiste ao filme, todas as roupas da Chanel são usadas quando Diana precisa de ajuda”, ela explica. “Se a cena era difícil ou se ela se sentia ameaçada, vestíamos um terno da Chanel para que ela tivesse um sistema de apoio. Mesmo que ela não estivesse se sentindo bem interiormente, ela ficava de pé e brilhava durante esses momentos.”

Stewart tem alguma experiência quanto a usar Chanel. Embaixadora da grife desde 2013, ela é conhecida por sua interpretação distinta da assinatura da marca. Apesar de seu estilo estar a mundos de distância do de Diana, ela sentiu que as peças do arquivo da Chanel foram essenciais para a história. “Se eu não tivesse um relacionamento com a Chanel, teríamos implorado para a casa para brincarmos com suas roupas. Se não nos deixassem, provavelmente iríamos imitá-los”, diz Stewart. “A personagem precisava delas. As roupas são uma parte dela. Há uma delicadeza e vulnerabilidade [nas roupas] que as tornam ainda mais bonitas. Diana é tão honesta que quando ela veste as roupas, você sente que ela as ama.”

Infelizmente, muitos dos melhores momentos de Diana com a Chanel vieram após sua saída da família real e a história de Spencer se passa durante um período em que a corte controlava seu guarda-roupa. “Havia todas essas restrições para considerar”, diz Durran. “Ela vestiu mais Chanel mais tarde em sua vida do que durante o fim dos anos 80 e começo dos anos 90.” O código de vestimenta real, que contém regras sobre tudo desde comprimentos de bainha até cores de esmalte, não podia ser ignorado. Mesmo assim, quando Durran encontrou a pièce de résistance do filme, um vestido tomara-que-caia da coleção haute couture da primavera de 1988, ela não queria mudá-lo. “Inicialmente, fiquei preocupada se teríamos que adicionar mangas e esconder seus braços por causa dos protocolos”, ela diz. “Quando tive a prova de roupas com Kristen e Pablo em Londres, ela vestiu e foi ótimo, a roupa perfeita para uma princesa extremamente glamurosa. Nós nem havíamos planejado usar para uma parte tão longa do filme, mas era bom demais para passar.”

Adornado com babados de tule, um cinto de cetim com apliques e um friso delicado composto de flores de tecido, o vestido era apropriadamente opulento. Entretanto, após 30 anos nos arquivos, o original era frágil demais para servir como figurino. “Era muito delicado, você não podia nem levar para fora”, diz Durran. “Felizmente, Chanel nos retornou e disseram que poderiam fazer uma réplica completa da peça.” Levou 1034 horas para duplicar o vestido, 700 dedicadas exclusivamente ao bordado complexo. Com cinco costureiras trabalhando sem parar no ateliê da Chanel, eles conseguiram dar uma reviravolta no projeto em apenas um mês. “Estamos em dívida com eles”, diz Durran. “Eles quase não tinham tempo e conseguiram recriar cada detalhe. No final, a única diferença foi que a nova versão se encaixava ainda melhor na Kristen do que a primeira.”

Embora essa não tenha sido a única peça recriada para o filme, o vestido de alta costura aparece em destaque no corte final do filme e no pôster, o qual mostra Diana encolhida no chão, seu corpo envolto em camadas de tule. Para Stewart, a peça refletia a existência privilegiada, mas infeliz, de Diana. “É de partir o coração o quanto era lindo”, ela diz sobre o vestido. “Nós procuramos no arquivo pensando: “Qual é o vestido?” e esse era inegavelmente o certo. Ver alguém no chão do banheiro com um vestido assim é realmente de partir o coração. Você não imagina alguém se sentindo tão mal em um vestido que é tão espetacularmente bonito e único. Eu sinto uma nostalgia. Normalmente, não tenho uma reação tão emocional com os pôsteres dos meus filmes, mas toda vez que vejo o de Spencer, sinto vontade de chorar.”

Para Durran, ajudar a facilitar respostas tão poderosas de Stewart era o papel principal da figurinista. “Meu trabalho é apoiá-la como atriz”, diz ela. “Assistir ao corte final foi tão avassalador porque a única coisa que eu queria era que meu trabalho desse para Kristen tudo o que ela precisasse para alcançar sua performance. Eu acreditei tanto nela e ela é hipnotizante como Diana.”

Fonte | Tradução: Equipe Kristen Stewart Brasil