Enquanto esteve no Telluride, Kristen Stewart conversou com o The LA Times sobre Spencer e sobre a Princesa Diana, a quem interpreta no filme. Confira:

“Eu sou totalmente uma idiota por Los Angeles”, Kristen Stewart diz, dobrando seu pulso para me mostrar uma tatuagem com o logo dos Dodgers de Los Angeles. É o último dia do Telluride Film Festival e estamos indo para casa no mesmo voo fretado, mas não antes de falar sobre Spencer, o drama dirigido por Pablo Larraín em que ela interpreta a Princesa Diana no momento em que está tentando se libertar de seu casamento sufocante e sem amor durante o fim de semana de três dias de Natal na mansão da família real.

Stewart tinha acabado de chegar de um painel no Telluride chamado “Recriando o Real: O que Significa Reimaginar uma Pessoa Conhecida do Passado” e agora, sentada em uma varanda, vestida casualmente neste dia quente no Colorado em uma blusa branca, calças confortáveis e seu cabelo em um rabo de cavalo, ela está rindo da ideia de ser uma participante “expert” nesse tipo de coisa. Além disso, ela está um pouco empolgada com um enorme golden retriever constantemente rodeando onde estamos sentados, possivelmente porque o alimentei com metade de um bolinho inglês alguns minutos antes dela chegar.

A verdade é, Stewart diz que não tem tanto conhecimento para transmitir, além de: Faça a pesquisa, então jogue fora para que você possa estar presente e ser impulsivo. Sim, ela teve um professor de dialeto para Spencer e foi a escola para estudar sua postura. Mas Stewart não queria que essas coisas definissem sua performance. Ela queria ser livre para imaginar.

“Diana é como um fio elétrico”, Stewart diz, se inclinando para frente. “Qualquer foto ou entrevista que vi, há uma qualidade explosiva e de tremer o chão que sempre me deu o sentimento de que você não sabe o que vai acontecer. Mesmo quando ela está em um tapete vermelho, parece um pouco assustador. Isso pode ser projeção, porque todos sabemos o que aconteceu. Mas ela tem essa sensação de gato selvagem. Então, eu queria transmitir isso. Não há um jeito de planejar o caos, você precisa agir.”

Como temos que fazer as malas de última hora, seguimos em frente, mergulhando no filme e na performance que todos nos festivais de Veneza e Telluride estão comentando.

Há uma montagem de dança em Spencer que pareceu que você estava pegando tudo o que aprendeu sobre Diana e colocando em movimento. É de tirar o fôlego… então, depois do filme, li que você odeia dançar. Fala sério.
Vou dizer agora que isso verdadeiramente tirou qualquer controle que eu tinha em a minha energia. Isso liberou a dançarina dentro de mim. É a única coisa que levei dela. Irei levantar-me na frente de qualquer pessoa agora, com certeza. Não tenho mais vergonha. É como tirar um band-aid. Antes, eu não conseguia me mexer, não era algo que me sentia bem.

E agora?
Estreamos nosso filme em Veneza e fizemos um grande festa com dança, acho que perdi uns 2kg em suor naquela noite. E, sim, acho que a dança diz muito sobre a Diana. Eu estava tentando planejar. Perguntava para o Pablo: “Quando vamos filmar? O que significa? O que vamos ouvir?” E finalmente, ele só disse: “Não estamos fazendo uma biografia. O que quiser aparecer, apenas confie que você a ama e permita que o seu conhecimento sobre ela se apresente.” Então, ele escolheu músicas que realmente tinha de tudo. Era ‘Elevator to the Gallows’ de Miles Davis, ou Talking Heads, Lou Reed, Sinéad O’Connor fazendo cover de Nirvana. A música sempre ditava o clima. Diana era alguém que amava música pop. Eu conseguia vê-la ouvindo Phil Collins e chorando no banheiro. Também conseguia vê-la dançando no closet ouvindo Madonna.

Quanto tempo vocês passaram filmando essas danças da Diana?
Filmamos no fim de cada dia por volta de 30 minutos aleatoriamente pela casa usando roupas diferentes. Alguns dias eu estava com muita raiva, outros estava completamente bagunçada. Alguns dias eu sentia um desejo imenso. Senti necessidade, ânsia, vontade. E outros me sentia muito pequena, solitária e idiota, e algumas vezes vingativa. No final, eu estava tipo: “Pablo, por favor, para. Você consegue fazer um filme de 12 horas com isso.”

Seu humores eram ditados pelo que você estava filmando? Assistindo ao filme, parece ter tido muitos dias em que você estava se sentindo com raiva ou sozinha. Ela é uma bagunça durante a maior parte do filme.
Ela abrigava uma raiva imensa. Você consegue sentir. Há momentos em que ela realmente está encurralada em um canto. É fácil pensar que você tem o direito de perguntar: “Por que ela está com raiva? Ela sabia onde estava se metendo.” Essa é uma imaginação poética sobre como deve ser a sensação de uma mulher à beira do precipício e em certo estado de desamparo. Não fazemos ideia do que aconteceu. Mas acho que ela nunca conseguiu lidar com a rejeição. Ela não conseguia mais engolir a mentira. E esse é um sentimento muito fácil de entender. Isso me deixaria com raiva. Acho que deixaria qualquer um com raiva. Como você não sente empatia com isso?

O quanto de si mesma você vê na Diana? Muitas pessoas acharam estranho você no elenco, mas você entende sobre a vida nos holofotes. E sabe que a fantasia é diferente da realidade.
Eu nunca fui muito boa em sair de quem eu sou, não sou uma atriz-personagem. Não estou criando regras para mim mesma, mas os trabalhos mais honestos que fiz contém minhas próprias memórias. E, olha, nunca cheguei perto da fama descomunal que ela tinha. Ela era a mulher mais fotografada do mundo. Para mim, é legal compartilhar meu trabalho com tantas pessoas. No entanto, algumas vezes é muito passageiro. É tão intocável que não parece real, portanto, faz você se sentir distanciado. As pessoas acham que conhecem você e você sente que não, então pensa: “Bem, não há uma impressão errada. O que quer eu esteja transparecendo agora é verdadeiro com o momento, qualquer combinação de detalhes que eles juntaram para formar essa impressão é o que é.”

Mas não te incomoda quando chega em um ponto onde você está acomodada, que tudo é uma imagem e você não pode controlar?
Eu sei o que é se sentir encurralada em um canto. Sei o que é sentir resistência, e então se arrepender disso, porque de repente você está sendo definida como rebelde. Você não faz ideia de quantas vezes as pessoas me disseram: “Então você não se importa, não é?” Tá brincando? Essa é realmente a impressão? Porque é o oposto. É tão desesperadamente o oposto. Essa ideia é complicada, mas definitivamente entendo o sentimento de querer ter uma conexão humana e, ironicamente, se sentir distanciada pela quantidade que é empurrada em você.

Você se descreveu como uma idiota por Los Angeles, então você se sentiu deslocada naquela propriedade rural absurda?
Na verdade, me senti incrivelmente confortável. Antes de começarmos a filmar, estava com tanto medo de que parecesse muito teatral, mas não havia muitas pessoas lá, então não pareceu enorme em escala. Era imenso, mas em escala parecia bem pequeno. Então, você se sente em casa. E mesmo que o filme seja triste e pesado, há uma energia implacável. Me diverti muito. Senti que fui permitida ser uma líder, porque ela era. Parecia que ela tinha essa sensação fácil de autoridade. Ela é, tipo, a melhor professora de jardim de infância que você pode imaginar.

Quando eu estava no set, eu tinha um amor imenso pela equipe. Sentia que se alguém estivesse cansado – e isso pode ser a coisa mais arrogante do mundo e eu não ligo –, eu dizia: “Ei, se alguém tropeçar, estou com vocês. Se segurem em mim e vou nos levar até lá.” Me senti mais alta do que nunca.

Acho que não preciso me preocupar em dar spoiler do final. Talvez a escolha da música do final seja um spoiler? Não sei. [Se você não quer saber, pule a pergunta] Mas, como todas as músicas dos anos 80, ‘All I Need is a Miracle’ de Mike & the Mechanics pareceu uma escolha inspirada para uma fuga por liberdade.
Quando Pablo tocou essa música para mim pela primeira vez, comecei a chorar. É quase como um momento John Hughes no final desse filme. Como se, de repente, a protagonista está caminhando para o pôr do sol, então corta de volta para o ex-namorado que é um babaca. Pareceu tão triunfal.

No filme, Diana conversa com o fantasma de Anne Boleyn. Você já teve encontros paranormais?
[Risos] Não. Mas senti algumas coisas fantasmagóricas e espirituais fazendo esse filme. Mesmo que eu estivesse apenas fantasiando. Senti que algumas vezes eu parava. É assustador contar a história de alguém que não está mais viva e que já parece ser tão invadida. Nunca quis que sentissem que estávamos invadindo nada, apenas que estávamos adicionando à multiplicação de uma coisa bonita.

Houve algum momento em que você sentiu Diana com você? Talvez isso soe muito estranho…
Ela pareceu muito viva para mim quando estava fazendo esse filme, mesmo que fosse tudo uma fantasia minha. Mas em alguns momentos meu corpo e minha mente esqueciam que ela estava morta. E, de repente, vinha uma imagem do que aconteceu e eu me lembrava de quem ela deixou para trás. Eu ficava impressionada com a emoção renovada. Toda vez. Talvez duas ou três vezes na semana, eu entrava em colapso pelo fato de que ela morreu. Eu não conseguia aceitar porque estava lutando todos os dias para mantê-la viva.

Nosso filme é muito dramatizado. É condensado em três dias e, para mim, parece um ballet. Mas eu ainda estava lutando para mantê-la viva todos os dias, então lembrar que ela não estava era absolutamente dilacerante. Me destruía constantemente. E isso pareceu espiritual… Era como se ela estivesse lá em alguns momentos, sabe, tentando abrir passagem. Foi estranho. E incrível. Nunca senti nada como isso na minha vida.

Fonte | Tradução: Equipe Kristen Stewart Brasil