Em entrevista para a Vanity Fair, a diretora de Crepúsculo, Catherine Hardwicke, falou sobre os impactos que o filme fez em sua carreira. A revista destaca os feitos do filme na bilheteria e como Hollywood trata mulheres cineastas até o dia de hoje. Confiram mais uma tradução do especial de 10 anos de Crepúsculo abaixo:

A diretora Catherine Hardwicke estava apenas semanas antes do começo da produção de Crepúsculo, sua adaptação em 2008 do best-selling de vampiros, quando ela recebeu um recado alarmante do estúdio do filme, Summit Entertainment. ”Eles chegaram até mim e disseram, ‘Você precisa encontrar um jeito de cortar US$ 4 milhões do orçamento nos próximos quatro dias, ou vamos parar a produção,” ela lembrou em uma entrevista recente, 10 anos após a estreia do filme.

Hardwicke e sua equipe correram pelo roteiro, apagando sequências de ação, tirando efeito e cortando tudo o que podiam do orçamento já pequeno. Ao todo, eles gastariam US$ 37 milhões – incluindo o marketing e a compra dos direitos do livro de volta da Paramount. Hardwicke permaneceu com esperança que uma vez que os executivos vissem o que ela tinha que cortar para atender suas demandas – grandes acrobacias e pedaços do cenário, ou seja, a mágica dos filmes de franquia – eles iriam perceber o erro.

Infelizmente: ”Eles não voltaram atrás,” Hardwicke disse, rindo. ”Eles disseram, ‘Ótimo, que bom que você cortou.’ E então fizemos o filme.”

Uma década depois, ainda é milagroso o que Hardwicke conseguiu fazer com esse orçamento. Crepúsculo, a história de uma adolescente que se apaixona por uma família impossivelmente bonita – agora sendo celebrada com uma edição especial em Blu-ray e 4K pela Lionsgate – fez assustadores US$ 69 milhões de dólares no fim de semana de estreia. Eventualmente, arrecadou US$ 393 milhões mundialmente, gerando mais quatro filmes e uma moda de franquias jovens adultas que iniciaram séries como Jogos Vorazes e Divergente, assim como a franquia Cinquenta Tons, que foi baseada em uma fanfiction de Crepúsculo, e a carreira de sucesso das estrelas Kristen Stewart e Robert Pattinson.

Nada mal, considerando que um executivo disse para Hardwicke uma vez que seu filme podia ser interessante, no máximo, para 400 garotas em Salt Lake City.

”Eles continuaram dizendo para manter o custo baixo, mas foi uma tempestade perfeita na época,” a diretora disse.

Summit inicialmente recrutou Hardwicke baseados em seu trabalho anterior, histórias corajosas sobre adolescentes, como Aos Treze e Os Reis de Dogtown. A empresa deu a ela cinco possíveis roteiros, incluindo Crepúsculo – e ela rejeitou todos. ”Eu não respondi a nenhum deles,” ela disse. ”Eu apenas joguei todos no lixo.” Não foi até ler o livro Stephenie Meyer que ela percebeu que Crepúsculo tinha potencial. Enganchada pelo romance sem esperanças, Hardwicke retornou para a Summit e perguntou se ela poderia fazer o filme, contanto que pudesse refazer o roteiro. Ela conseguiu o sinal verde.

Desse ponto, ela começou a procurar por estrelas para interpretar os principais: uma adolescente e o vampiro que ela ama. Ela encontrou Bella em Stewart, naquela época uma estrela no circuito independente que tinha acabado de fazer o memorável Na Natureza Selvagem. Para encontrar o Edward perfeito, Hardwicke fez testes de química entre Stewart e quatro possíveis co-estrelas. ”Foi como uma central de encontros às cegas,” Hardwicke disse. ”Eu conhecia Michael Angarano, namorado dela na época, porque ele estava no meu filme Os Reis de Dogtown, então eu me senti um pouco culpada. Tipo, meu Deus, eu estou fazendo sua namorada beijar esses outros caras!”

Hardwicke e Stewart eventualmente decidiram por Pattinson, outra estrela em ascenção que o maior crédito até agora era Cedric Diggory em Harry Potter e o Cálice de Fogo. Mas após conseguir o papel, o jovem ator quase estragou tudo quando chegou a hora de ganhar os executivos da Summit. Ele apareceu na reunião desarrumado, com uma camisa suja e com o cabelo mal pintado por conta de seu último trabalho.

”Ele estava um pouco desgrenhado,” Hardwicke admitiu. Os executivos não estavam impressionados: ”Esse cara pode ficar bonito? Ela lembra da pergunta. Hardwicke convenceu a eles de que com uma limpeza, ele seria transformado em uma estrela de cinema bonita e etérea. Eles entraram na onda e a adaptação em ação. Uma franquia de vampiros brilhantes nascia.

Depois do sucesso do filme, Pattinson e Stewart instantaneamente ascenderam ao estrelato completo. Embora ambos pudessem ter ficado com blockbusters, eles ganharam elogios da crítica ao se interessarem por filmes menores após seus anos de Crepúsculo. Hardwicke decidiu não dirigir o segundo filme, porque exigiria uma reviravolta muito apertada; se ela tivesse aceitado, ela não teria tempo de respirar após a pós produção e divulgação do primeiro filme. (Crepúsculo estreou em novembro de 2008, Lua Nova chegou aos cinemas apenas um ano depois.)

A diretora inicialmente não estava preocupada com o que viria depois para ela. Afinal, ela tinha feito um blockbuster enorme com um orçamento relativamente apertado, cortejando uma série de novos fãs no processo; devia estar chovendo ofertas.

Mas Hardwicke percebeu que ela não entrava nem no quadro de certos projetos. Ao invés disso, ela ficou parada enquanto seu filme avançava – sem ela, ou diretores como ela. Após o sucesso de Crepúsculo, Hardwicke nota, vieram mais quatro da saga, três Divergentes, quatro Jogos Vorazes – e ”nenhum dele foi dirigido por uma mulher! Ela disse, ainda incrédula. ”Isso quebrou o meu coração. Há outras mulheres incríveis por aí que poderiam ter feito esses filmes.”

É um problema que vai além do gênero jovem adulto, Hardwicke apontou.

Hollywood tem tendência de dar projetos escritos e estrelados por mulheres para homens: ”Há muitos projetos assim,” ela disse, listando vários exemplos. ”E continua. São histórias escritas por mulheres, sobre mulheres, e com um homem dirigindo. De novo, de novo e de novo.”

Hardwicke é grata, pelo menos, por não ser mais a única mulher a lançar uma franquia de blockbuster; Sam Taylor-Johnson, que dirigiu o primeiro Cinquenta Tons, e Patty Jenkins, de Mulher Maravilha, pegaram a tocha. ”Patty chutou o traseiro de todo mundo,” Hardwicke disse, apesar de Jenkins só ter conseguido a chance após um longo tempo. Quatorze anos se passaram entre o ganhador do Oscar Monster e o lançamento de Mulher Maravilha. Hardwicke, também, tem uma lista surpreendentemente pequena de créditos desde Crepúsculo: alguns episódios de séries, dois filmes independentes e A Garota da Capa Vermelha, uma reimaginação de estúdio sobre o conto de fadas estrelando Amanda Seyfried. O filme de 2011 acabou desapontando na bilheteria e sendo massacrado pelos críticos, diminuindo o momento renovado na carreira de Hardwicke.

Mas após esse período, sua lista está cheia novamente; ela recentemente completou uma adaptação em inglês do suspense mexicano Miss Bala, estrelando Gina Rodriguez e Anthony Mackie, que será lançado pela Sony, e está trabalhando em um projeto de fantasia chamado Dissonance.

Hardwicke está chamando atenção dos produtores que a procuram em eventos e contam sobre os projetos femininos que estão trabalhando. Geralmente, no entanto, quando ela pergunta se alguma diretora está a frente do projeto, eles negam. ”Já encontrei produtores que disseram, ‘Nós tentamos ter diversidade.’ Você tentou, e contratou um homem branco novamente. O quanto você tentou?” ela perguntou.

Hardwicke suspirou. ”De qualquer jeito, pensamento positivo.”

Fonte | Tradução: Equipe Kristen Stewart Brasil