Kristen foi entrevistada pela advogada e escritora Constance Debré para a quarta edição da revista francesa Mastermind. As duas falam sobre sexualidade, gênero, carreira e outras coisas durante a entrevista. Confira:

Constance Debré: Como advogada de defesa, estou mais acostumada a falar com criminosos em Fleury-Mérogis do que estrelas de filmes no Le Bristol. Mas talvez não seja tão diferente. Eu acredito que aqueles caras dizem a verdade sobre nós que tentamos evitar. Como vocês, atores, conseguem nos dar o mesmo sentimento?

Kristen Stewart: É engraçado, quando você está tentando entrar em um personagem, parece que você está construindo alguma coisa, porque você quer que ele se sinta completo, então você pode esquecer que está mentindo. Eu nunca estou muito interessada em pessoas que são muito boas em serem convincentes. Eu gosto de ver as pessoas tropeçarem e caírem em suas ideias ao invés de empacota-las perfeitamente. Atores muito preparados e impecáveis não são interessantes. Eu gosto de ver as pessoas se perderem um pouco. Eu nunca sinto como se estivesse tentando conseguir algo em cima de alguém. É mais sobre deixar essa pessoa entrar, ao invés de projetar uma ideia.

CD: Talvez seja similar com o que eu faço quando tenho que me levantar e defender um cliente. Eu acho que o único jeito de ser uma boa advogada é contar a sua verdade através da verdade desse cara. Talvez as únicas pessoas que nunca mentem são bons atores, bons advogados e escritores, também.

KS: Eu concordo totalmente. Eu nunca quero me sentir como se estivesse contando uma mentira. Sempre deve parecer como se eu tivesse acabado de descobrir a resposta para alguma coisa e eu fico, ‘Oh, meu Deus! Eu entendi! Eu finalmente entendi algo!’ Você já defendeu alguém para quem teve que mentir?

CD: Não.

KS: Viu, por que você faria isso? É provavelmente o mesmo sentimento, ao estar em um set de filmagem, porque as coisas não acontecem perfeitamente sempre. Algumas você se encontra em projetos onde você precisa conectar pontos e preencher espaços que parecem desonestos, somente para conseguir contar a história. E é sempre aparente. Você sempre fica, ‘Oh, Deus, isso é besteira.’ E machuca. Quando se torna besteira, é fisicamente doloroso.

CD: Você disse em uma entrevista com Juliette Binoche – e eu amo essa frase – ‘Eu sou viciada em primeiras vezes.’ É pelo sentimento de…

KS: Descoberta, é sobre descoberta. Repetir-se é embaraçoso. Essencialmente, na segunda vez, é mentira. Obviamente, quando se trata de filmes, você faz as coisas milhões de vezes, mas não é porque você quer fazer “certo”, ou a mesma coisa todas as vezes, é que você quer ver o quão longe você consegue ir, e se surpreender com as diferentes repetições de uma experiência.

CD: Você fez um filme, Come Swim, e eu achei muito interessante ver que foi sobre a vida interior. É cheio de sentimentos como dúvida, solidão, vazio. É uma história sem outra história. E o título, é um movimento – ‘venha’. Você não está mais sozinha.

KS: Sim, é um convite. É encorajador, também. Otimista. Eu basicamente queria externalizar o sentimento que você geralmente tem sozinho: o sentimento de estar trancada dentro do seu próprio corpo, inconsciente de que você pode confiar que seu corpo é muito mais forte do que sua mente. Esse é um conceito simples, mas quando você esquece disso, você se sente submerso, o ritmo da vida parece que está caminhando pela água. Se você percebe que não pode lutar com algo que é muito mais forte do que você, essa ideia da água ser algo vital que precisamos, mas também é capaz de nos destruir – você precisa soltar o controle e esse pensamento rígido e isolado, e seguir em frente. Flutuar. Então você não vai se cansar e se afogar. Eu queria fazer essa dor visceral e surreal, quase como um sonho, e de repente você fica, ‘Cara, você é como todo mundo e é completamente normal, para com isso!’

CD: Você se lembra daquele filme ‘Quero Ser John Malkovich’? Como é ser Kristen Stewart? Qual é a coisa especial e única disso?

KS: O que eu gosto sobre estar “aqui”? O que me faz mais feliz é ter um grande reservatório de energia e as pessoas que eu vejo. O que me faz mais feliz é quando vejo outras pessoas ligando esse fogo de correr atrás de algo e sendo realmente honesto sobre o desejo de conquistar o momento. E então você chega perto dessa pessoa e é tipo, ‘Cara, é por isso que estamos aqui!’ Eu diria que é o melhor sentimento de todos, fazer coisas com outras pessoas.

CD: É uma questão de poder?

KS: É troca de poder. Algumas vezes, soltar esse poder te faz sentir mais poderosa por se permitir ser subordinada de algo maior que você. As histórias mais interessantes de conta, e pontos para fazer na sua arte, são os que você fica, ‘Onde estou nessa situação? Eu quero ficar aqui ou quero crescer mais?’ Os dois são bons. Você não pode sempre ser forte. A balança da alegria e da tristeza, da dor e do prazer – você precisa que as duas estejam iguais.

CD: Eu amo essa ideia. Me faz pensar sobre Tirésias, da mitologia grega. Ele é cego, mas ele pode ver o futuro. Você sabe como ele conseguiu esse poder? Ele passou sete anos como uma mulher, então ele sabe o prazer tanto de um homem quanto de uma mulher.

KS: Honestamente, enquanto estamos falando sobre mitologia grega, a mitologia de gênero é algo que é dado na colher para as pessoas desde o dia em que nasceram. Quando você se livra dessa ideia, é muito mais divertido perceber que você tem tudo em você. Melhor do que se colocar em um só, para mim.

CD: Para mim também. Eu passei 20 anos com um marido, o pai do meu filho, e então… Eu tive esse sentimento de que eu tinha um super poder, que você pode ter tudo.

KS: Eu completamente sei o que você quer dizer.

CD: Eu gosto do jeito que você falou sobre isso, uma vez, se eu puder te citar: “O problema todo da sexuliadade é tão cinza.” Esse cinzento é fantástico.

KS: Sim, ambiguidade é a minha coisa favorita, sempre. Em termos de sexualidade? Claro. E também em filmes, se você responde perfeitamente a cada pergunta, você não permite as pessoas a terem sua própria experiência e a formar um pensamento. Eu me sinto do mesmo jeito sobre como fodemos um ao outro. Você não quer saber sobre tudo o tempo todo.

CD: Nos fale sobre Karl. Eu algumas vezes me pergunto se ele é real, ou um personagem sofisticado.

KS: Ele é absolutamente os dois. Quando se trata de sofisticação, ele é uma das pessoas mais cultas e inteligentes que eu já conheci. Ele é um pesquisador obsessivo. Ele nunca para de derramar fatos e assuntos que ele gosta de falar.

CD: Que tipos de coisas?

KS: Se eu sento em uma cadeira em um photoshoot, ele me conta a história da sua mobília. Ele estava falando comigo sobre os diferentes filmes que ele usava para fotografar fontes na Itália. Nunca para. Ele tem mais desejo de não parar do que já vi em qualquer pessoa.

CD: Kathy Acker escreveu, ‘Se você me perguntar o que eu quero, eu vou dizer que eu quero tudo.’

KS: Oh, sim.

CD: ‘Deixe-me abrir minhas pernas.’ Você tem alguma ideia de como vai abrir as suas?

KS: Agora, estou ciente do fato de que assistimos, em termos de cinema, homens e seus jeitos com seus corpos e coisas físicas que são fundamentais para a perspectiva masculina. Em todos os filmes sobre amadurecimento sobre jovens meninas, mesmo que seja a coisa mais sincera, há uma falta de verdade física sobre as experiências femininas e o jeito como descobrimos nosso corpo. É como se tivéssemos medo de usar certas palavras. Esse é o filme em que estou trabalhando. Minha fala favorita no filme que estou escrevendo é, “Eu pensei sobre Sienna Torres e sua mão na minha boceta tão aberta quanto uma boca dizendo filho da puta,” ela recita. “Isso não é algo que as pessoas ficam confortáveis ouvindo, até agora, mas eu acho que é o tempo perfeito. Não tem nada sujo sobre isso, mas eu definitivamente serei vulgar, serei completamente aberta sobre o fato de que somos seres inteiramente sexuais.

CD: Mal posso esperar para ver.

Fonte | Tradução: Equipe Kristen Stewart Brasil