Kristen conversou com a revista Entertainment Weekly sobre seu novo filme Lizzie, e falou sobre o romance entre as duas personagens principais e mais sobre o enredo do filme. Confira:

Lizzie, de Craig William Macneill perfura até o osso da história especulativa com sua versão feminista do misterioso assassinato da família Borden, que sugere que a famosa assassina suspeita (Chloë Sevigny) se rebelou contra os abusos de seu pai com sua empregada/namorada irlandesa, interpretada por Kristen Stewart, que explica para o EW por que os opressores patriarcais deveriam prestar atenção no aviso sangrento do filme – e como o projeto evita vestir suas principais amantes no mesmo clichê do cinema do mesmo sexo.

ENTERTAINMENT WEEKLY: Então, sexo em um pombal e assassinatos sangrentos: esse é o romance do ano.
KRISTEN STEWART: [Risos] Sim!

A história de Lizzie, na verdade, se tornou uma lenda polpuda e quase cartoonística ao longos dos anos, o que a desumaniza. Você acha que esse filme reintroduzir o elemento humano que faltava?
Eu acho que esse crime lascivo, verdadeiro e frenético foi transformado em folclore. Todos sabem a manchete, mas é legal olhar mais afundo e ler o artigo e considerar que temos muitos detalhes adicionais. Ela estava com muita raiva. Alguma coisa deve ter irritado ela. Ela não é apenas louca. Não estou dizendo que deveríamos ter empatia com assassinos. Eu nunca acho que ser super violento é necessariamente a resposta para tudo. Mas é legal pegar uma história que todos estão familiarizados em preto e branco e dar vida a ela.

Existe uma rebeldia nisso tudo, dada a todas as liberdades distorcidas do filme?
Definitivamente. Eu fui para Savannah [para filmar] dois dias depois da eleição do Trump. Essas conversas bem altas que estão acontecendo agora não estava necessariamente no feed da tela dos celulares de todo mundo. Não era algo que estava tão na mídia como agora. Então, sim, eu acho que quando fizemos esse filme ficamos tipo, Deus, imagine duas mulheres com esses vazios, e elas reconhecem isso uma na outra. Seus instintos são tão opostos, mas elas completam a voz uma da outra desse jeito que fortalece a outra o bastante para que, na verdade, elas não sejam controladas e aproveitadas sem nenhuma opção pelo resto da vida. Elas são basicamente prisioneiras em sua própria casa.

É interessante e também é uma história de amor trágica. Todo mundo gosta de crimes reais, todos querem saber como alguém seria capaz de fazer algo tão abominável. Mas, nesse filme, não temos empatia, estamos apenas dizendo que era muito mais difícil viver como uma mulher naquela época, e ainda estamos lutando e reconhecendo as coisas pela primeira vez, então é meio louco imaginar: Como era o ‘gay’ naquela época? Como era para duas jovens mulheres terem sentimentos calorosos e transcendentes com feromônios voando entre elas, e um apoio que elas nunca imaginaram de uma outra pessoa? Ainda assim, elas estão usando corsets e Bridget está varrendo o chão e sendo abusada por seu patrão. Imagine todas as diferentes histórias que foram contadas, mas completamente parciais.

Chloë me disse que ela queria acabar com o patriarcado com esse filme. Você canalizou alguma raiva contra o patriarcado na sua performance?
Bridget está em conflito sobre seus sentimentos naturais e ela não é tão extrovertida como a Lizzie porque ela, em sua mente, não tem esse direito. Ela vem da pobreza extrema, ela está totalmente deslocada na América. Ela está completamente sozinha. Quando ela conhece a Lizzie, há um espírito persuadido por causa de seu reconhecimento mútuo. Eu nunca consegui ter essa raiva porque eu estava interpretando alguém completamente calada. Teoricamente falando, sim, eu absolutamente queria fazer parte desse filme porque você vê essas duas garotas que são inteiramente oprimidas e que não podem respirar e estão sendo estranguladas. Escolha não é uma palavra que existia no vocabulário delas. Mesmo que não termine super bem para as duas, apenas conseguir assistir duas pessoas que não podem existir e se sentirem bem ou felizes por um segundo, apenas compartilhar alguns momentos e respirarem um pouco juntas como uma só é, para mim, triunfante.

Bridget lida com problemas que estão em destaque agora: Ela é abusada sexualmente por Andrew e é relutante em denunciar por medo de perder seu trabalho. Eu sei que você não está tentando ter empatia por assassinos, mas no ambiente distorcido desse filme, os assassinatos são justificados já que o pai de Lizzie é um abusador?
Eu não quero medir as palavras e dizer que é óbvio que esse é o motivo pelo qual Lizzie precisou matá-lo. Eu nunca iria justificar violência, mas nós somos animais. Se você encurrala um animal após trancá-lo numa jaula e faz coisas bizarras, o que você achar que vai acontecer? Ele vai morder de volta. É satisfatório ver essa reviravolta. Teoricamente, é justificado. Lizzie não era um monstro louco e malvado, ela era vítima de abuso.

A famosa cena do assassinato é feita sem roupas. Como você se sentiu com isso?
Eu amo esse detalhe. O fato de que a vemos seguir esse assassinato completamente nua, ela fica feroz. Ela se torna esse animal. Ela está visualmente, impressionantemente feminina no momento, e também muito forte. A imagem do rosto da Chloë, desligada, carregando esse assassinato com sangue respingado enquanto você vê seus seios – é melhor tomar cuidado, cara!

É interessante para mim porque a cena de sexo é com roupas, e não é até o assassinato que vemos seus corpos.
Nós nunca fomos inseridas em cenários bonitos. Nunca foi tipo, “Okay, então o seu corset vai abrir!” É claro que não vai abrir! Demora, tipo, uns 10 minutos para tirar, então se vamos transar, vai ter que ser de roupa! Aquele nível de intimidade, essa troca em silêncio que elas fazem, encaixa. Foi presente e honesta. O mesmo com a cena do assassinato, elas não podiam usar roupas porque o sangue ficaria nelas, então elas precisavam tirar. Mas ver Chloë nua com um machado é muito representativo sobre o que é esse filme. Por outro lado, nós em nossas roupas enquanto estamos sendo íntimas estamos tentando ficar por baixo dessas amarradas, tentando muito nos aproximar por apenas mais um centímetro. Nós percebemos que o que é sexy é o imediatismo de não tirar as roupas.

Como vocês abordaram a apresentação do relacionamento do mesmo sexo intimamente, mas não explorado sexualmente?
Naturalmente, de uma visão de dentro. É uma história queer em um filme que não o define inteiramente. É muito legal fazer filmes com nuances, camadas e reais, ao invés de pegar algo importante para mim e fazer ser clichê e amplo. Isso me irrita. Eu odeio que apresentem desse jeito. Para elas, a palavra ‘gay’ não é um fato. É um instinto que não possui nome.

Chloë e Bryce disseram que eles tiveram encontros espirituais com alguns fantasmas presentes antes e durante as filmagens. Você foi poupada disso?
Não, eu nunca visitei. [Risos] Eu totalmente acredito que a Chloë teve essa experiência louca. Ela teve uma noite conturbada e não conseguia dormir, e ela estava certa de que era o Andrew. Eu, por outro lado, não tive nenhuma experiência específica. Quando você faz um filme sobre uma pessoa real, especialmente se ela já não está mais viva, é aquela coisa onde você imagina se eles podem ver você cutucar o nariz ou algo assim. Você se pergunta se eles estão olhando você. Qualquer ventinho, a Chloë estava tão dominada que ela ficava, “Oh, isso tem que ser a Lizzie!”

Bom, se os espíritos visitarem você no futuro, espero que seja para falar que você fez um bom trabalho no filme.
Deus, eu espero!

Fonte | Tradução: Equipe Kristen Stewart Brasil