Kristen Stewart e Mackenzie Davis conversaram com o The Guardian sobre Happiest Season, a amizade entre as duas, a abundância repentina de conteúdo queer e até debatem sobre Simplesmente Amor. Confira:

”É um filme natalino gay,” diz Kristen Stewart. ”E eu sei que é irritante rotular isso logo de cara, mas, para mim, isso é extremamente atrativo e parece como… um grande alívio.”

Silenciosamente e discretamente, Happiest Season parece grande coisa. É uma comédia romântica festiva, dirigita por Clea DuVall, e estrela Mackenzie Davis como Harper e Stewart como Abby, um casal forçado a viajar até a família rica e conservadora de Harper no Natal. Durante cinco dias frenéticos, elas têm que fingir ser amigas que moram no mesmo apartamento, por medo dos pais de Harper descobrirem que elas estão juntas. Embora esses ingredientes possam criar um drama potencialmente pesado, Happiest Season os transforma em comédia, encontrando momentos tocantes em meio ao caos e estupidez escritos intensamente. É engraçada, ambiciosa e é a primeira comédia romantica natalina gay convencional.

”Não existe nenhuma comédia romântica com personagens principais queer?” pergunta Davis, soando incerta.

”Isso provavelmente não é verdade,” diz Stewart. ”Mas duas garotas em um filme de Natal? De um estúdio como a Sony? Absolutamente não.” Ela faz nuh-uh para dar ênfase. ”Digo, não desenvolvi essa experiência. Não estou dizendo: ‘Somos os primeiros!’ Estou elogiando as pessoas que criaram isso.”

Em 2017, Stewart foi anfitriã do Saturday Night Live, dizendo para o público que ela era ”muito gay, cara.” Ela diz que quando era mais nova, não tinha um filme assim. ”Eu não cresci com um filme que tinha uma ambição tão ampla, que tinha duas mulheres no centro de uma história de amor, e não nesse formato. Não quero dizer que não houve nenhum conteúdo queer nos últimos anos que fosse muito bonito e realmente importante. Mas ao mesmo tempo, não é algo com o qual cresci, e eu adoraria. Então é bom fazer parte disso.”

As duas estão falando de suas respectivas casas em Los Angeles, apesar de Davis estar fazendo as malas para deixar a dela. Nós nos falamos em setembro, quando as queimadas estavam devastando a área e as pessoas foram aconselhadas a ficar em casa. ”Mackenzie está descarregando sua máquina de lavar louças, e eu estou sentada no meu quarto,” diz Stewart, enquanto os pratos tilintam no fundo. ”Você vai ouvir muito barulho de fundo,” avisa Davis.

Elas claramente se dão bem. ”Merda, Mackenzie, o que foi aquilo que você disse que eu achei muito engraçado?” diz Stewart em um momento.

”Eu te amo e estou apaixonada por você?” responde Davis, séria.

”Iiiisso. Então, nós nos amamos, estamos apaixonadas uma pela outra, e fizemos esse filme sobre pessoas amando uma a outra,” brinca Stewart.

Stewart assinou para Happiest Season primeiro, depois que DuVall voou até a Alemanha, onde Stewart estava trabalhando, para persuadi-la a embarcar no filme. ”Nós falamos sobre quem poderíamos achar como parceira para a Abby, e falamos sobre várias pessoas, até que chegamos na Mackenzie e percebemos que não havia literalmente mais ninguém. Felizmente ela queria fazer isso.”

Por que precisava ser Davis? ”É uma pergunta que gosto de responder porque você não pode falar essas coisas sobre si mesmo,” diz Stewart. ”Ela é uma pessoa tão real. Eu queria que esse casal, e o jeito que interpretássemos esses indivíduos, fosse realmente casual, meio que com confiança. E Mackenzie é engraçada e contagiante, ela tem essa confiança que eu acho contagiante.” As duas concordam que a química nunca pareceu forçada. ”Foi muito importante para mim mostrar um casal queer se sentindo bem e confortável em sua própria pele. Eu não posso assistir esse filme e sentir que é mentira. De qualquer forma, felizmente, a Mackenzie existe e pronto.”

Elas filmaram Happiest Season em Pittsburgh em janeiro e fevereiro, com a pandemia pairando fora de foco, e conseguiram terminar antes de tudo fechar. ”Nós estávamos assistindo a pandemia chegar que nem idiotas,” lembra Davis. ”Estamos do mesmo jeito com as queimadas em LA ou a mudança climática em geral, se está queimando do outro lado da cidade, você fica: ‘Oh, isso é terrível.’ Mas você não muda seu comportamento em nada. E então a fumaça chega na sua vizinhança e você pensa: ‘Eu simplesmente não vou lá fora.’ Nós temos uma reação tão atrasada com as coisas. É chocante.”

Stewart diz que esse filme ”é o único que eu não me sentiria estranha sobre lançar agora.” Ela aponta que foi feito antes do mundo mudar drasticamente. ”Então não é tipo” – ela faz uma voz brincalhona – ”’É nisso que estamos trabalhando agora!’ Porque, na verdade, esse filme vem de um lugar tão afetuoso e com boas intenções. Um bonito filme natalino sobre união, uma família ficando do outro lado de um mal entendido. Não me faz ficar: por que não estamos falando de coisas melhores agora? Porque essa é uma conversa válida e relevante.”

Ela diz que já se sentiu desconfortável sobre divulgar um filme ou trabalho, no contexto do que mais está acontecendo no mundo. ”Eu tive que ir na Ellen um dia depois da eleição do Trump, e eu estava emotiva e louca. Já tive experiências onde pensei, ‘Isso é estúpido e não quero fazer isso agora.’ Enquanto com esse filme, não parece estúpido para mim.”

Nos últimos dois anos, tem sido difícil não notar que há mais filmes grandes com relacionamentos femininos do mesmo sexo, embora seja importante notar que a escassez anterior faria qualquer coisa parecer excesso. Ainda assim, de filmes independentes até a Netflix, os personagens LGBTQ+ estão nas telas em um número maior do que antes. Por que isso? “Acho que é evidência do progresso e do desejo,” diz Stewart. ”Sabe, um passo de cada vez. É obvio para qualquer pessoa que já se envolveu com esse pensamento que a resposta seria: porque estamos desejando isso, obviamente, então precisa existir mais.”

Davis adiciona que, já que demora para fazerem os filmes e então estrearem, ”essas decisões foram feitas provavelmente três ou quatro anos atrás. Então existe esse atraso onde estamos comemorando agora.” Em 2016, ela estrelou em San Junipero, um raro episódio de Black Mirror que foi otimista e doce, contando a história de duas mulheres que se conhecem e se apaixonam, de primeira, nos anos 80.

”Eu entrei nisso totalmente egoísta,” diz Davis. ”Eu queria trabalhar com essas pessoas e amei a história. Falhei em reconhecer a importância cultural porque eu não estava ciente da falta desse tipo de história no cânone queer.” Ou seja, uma história positiva, com um final feliz.

”Não foi até a estreia que eu fiquei, ‘Oh, merda, as pessoas estavam gritando por isso e agora existe uma representação positiva de um relacionamento queer que não – digo, spoiler, elas estão mortas – mas não termina em uma morte trágica. Há esse sentimento de renascimento, o que é lindo.”

Ela tem uma teoria. ”Ugh, isso vai me fazer soar como uma idiota babaca,” ela diz, cuidadosamente, mas se pergunta se San Junipero teve algo a ver com a nova onda. ”Talvez seja porque eu estava na mídia que estavam falando, mas era uma conversa que eu não estava ciente antes, e pareceu que as pessoas estavam realmente interessadas nessas histórias.” Isso não te faz soar como uma idiota. ”Eu não queria ficar tipo, ‘Bom, é por causa de San Junipero!” ela diz rindo. ”Não é mesmo. Eu acho que Charlie Brooker é alguém que estava fazendo algo antes que houvesse um clamor crítico e comercial por isso. E então acho que as pessoas experientes na indústria reconheceram que há um desejo comercial por essa coisa e atenderam o chamado. Entende?”

Stewart diz que quando ela viu San Junipero, ”chamou a minha atenção na época. Eu estava com a minha primeira namorada e ficamos: ‘Oh, isso está na TV, que loucura.’ Definitivamente foi algo que notei. E isso é tão legal e estranho, e agora, estou aqui com você fazendo uma entrevista.”

Happiest Season também está levantando outra bandeira, para as comédias românticas, embora em um formato mais pontiagudo – é uma história de amor, mas agradavelmente resistente ao sentimentalismo. Há uma discussão que o gênero está em declínio desde seu auge nos anos 90, eliminado pelas grandes franquias de super-heróis. Nós precisamos de mais comédias românticas? ”Eu não vi muitos filmes de super-heróis, mas egoisticamente, realmente prefiro comédias românticas,” diz Stewart. ”Mackenzie, você já fez os dois, você é uma super-heroína.”

Davis interpretou Grace, uma versão “aumentada” de uma soldada humana em O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio em 2019, mas ela prefere a versão não-aumentada. ”Vou falar sobre isso como parte do público. Eu tenho assistido muitas comédias românticas recentemente porque amo assistir filmes divertidos e digestíveis quando estou fazendo os afazeres domésticos. E você não pode sair porque a fumaça está muito densa em Los Angeles. Eu amo. Me sinto confortada por elas.”

”Eu não esperava essa resposta,” diz Stewart. ”Sério? Você tem assistido várias comédias românticas?”

”Bom, sim. Eu acabei de assistir Convidado Vitálico, que é daquela atriz de PEN15 [Maya Erskine], ela é muito boa. E então assisti a que eu acho ser a melhor comédia romântica de todos os tempos, Dormindo com as Outras Pessoas, de Leslye Headland. Mas existe esse tipo de amor perfeito e idealizado que é comunicado por meio de comédias românticas que eu acho um pouco perigoso,” diz Davis. ”Eu acho que nosso filme é tipo, o amor é difícil. E gosto que nosso filme seja romântico, e é uma comédia natalina, mas parece um pouco menos arrumado do que uma comédia romântica tradicional ou do que algumas que vi nas últimas semanas.”

”Realmente é,” adiciona Stewart. ”Tipo, Harry e Sally – Feitos Um para o Outro é a coisa mais assustadora e bagunçada até eles ficarem juntos, o que leva anos e anos.”

Fazer um filme natalino, romântico ou de outro jeito, pode ser um negócio arriscado. Happiest Season tem sucesso, mas outros não conseguiram. O que precisa para fazer um bom filme festive? ”Eu acho que um filme de Natal realmente bom parece vivido,” diz Stewart. ”Parece um pijama. Tipo, ‘Meu Deus, essas pessoas realmente se conhecem ao ponto de se odiar, e então se torna engraçado novamente.’ Geralmente, um bom filme de Natal… está pronto pra isso?” Ela faz uma voz boba: ”Te faz acreditar no Natal.”

Quanto aos seus favoritos, Davis diz que assistiu muito Esqueceram de Mim quando era pequena. ”E eu nunca me identifiquei como fã de Simplesmente Amor, mas acho que sou. Hugh Grant é tão talentoso. Se você assistir quatro performances de uma vez, ele é um artista brilhante. Acho que esse é meu filme de Natal.”

É uma escolha divisora, eu digo. As pessoas ou amam ou odeiam.

”Acho que estou no meio onde acho legal, mas não significa nada pra mim, acho ótimo. Por que as pessoas odeiam?” ela pergunta.

Bom, algumas pessoas acham a história do Andrew Lincoln esquisita.

”Oh, que ele rouba Keira Knightley do melhor amigo? Mas ele faz um monte de plaquinhas!”

Stewart interrompe. ”Eu provavelmente não deveria mencionar isso, mas foda-se. Eu também me sinto um pouco estranha sobre o cara que… Colin Firth vai atrás de alguém que ele nunca conversou. E eu entendo que o amor transcende as barreiras linguísticas, mas ao mesmo tempo… Eu não deveria ter dito isso.”

”Pessoal,” diz Davis, de repente. ”Preciso dizer uma coisa.”

”O que?” diz Stewart, assustada.

”Eu odeio Simplesmente Amor. Retiro o que eu disse antes.”

”Sinceramente, pareceu que eu estava cavando meu próprio buraco!” Diz Stewart. ”E então você apareceu e me ajudou, tipo você concorda. Eu não tenho um filme de Natal favorito. Acho que é a verdade sobre essa conversa. Mas eu já vi Simplesmente Amor.”

Demorou, mas conseguimos a verdade.

”Eu sei,” diz Davis, alegremente. ”Havia tanta performance acontecendo, e finalmente falamos tudo.”

Stewart soa aliviada. ”Você realmente é a minha pessoa favorita de todos os tempos.”

Fonte | Tradução: Equipe Kristen Stewart Brasil