Kristen Stewart e Clea DuVall conversam com a Variety sobre representação LGBTQ+ em filmes e o processo para fazer Happiest Season.

Clea DuVall cresceu amando filmes natalinos. Tendo morado em Los Angeles sua vida toda, a atriz e escritora/diretora de 43 anos sempre ansiava ver como a época do natal fazia a cidade parecer diferente. “Parece ser a coisa mais perto que L.A. tem de uma temporada e isso era algo que eu sempre esperava, como criança,” DuVall diz. “Porque, Deus, fica monótono.”

DuVall tem sido uma atriz onipresente em filmes e séries por anos – em dramas como “Garota, Interrompida,” “Argo” e “Carnivale,” e comédias como “Nunca fui Santa” e “Veep” – quando ela teve a ideia para “Happiest Season,” uma comédia romântica de natal com um casal lésbico como centro. “Eu nunca assisti um filme que realmente representasse minha experiência,” ela diz. “Qualquer personagem LGBTQ+, se existisse algum, eram coadjuvantes.”

Esse definitivamente não é o caso em “Happiest Season,” o segundo filme de DuVall como diretora após a dramédia “A intervenção”, lançado no Sundance, em 2016. Nele, Kristen Stewart (Abby) e Mmackenzie Davis (Harper) interpretam um casal prestes a noivar, até que Harper convida Abby para o Natal em sua casa, durante um momento de tanta felicidade, que ela esquece que ainda não assumiu sua orientação sexual para sua família. Harper então tem que recrutar uma Abby totalmente chateada, mas disposta, para manter seu segredo, prometendo que ela sairá do armário para seus pais (Victor Garber e Mary Steenburgen) depois dos feriados. (“Eles também acham que eu sou hétero,”, Abby diz a seu melhor amigo, John – interpretado por Daniel Levy – no telefone. Um incrédulo John pergunta, “eles já conheceram alguma lésbica?”)

Em “Happiest Season” – escrito por DuVall e Mary Holland (que também interpreta Jane, a irmã excêntrica da Harper) – mal-entendidos ocorrem, sentimentos são feridos e o relacionamento está em perigo. Tipo: como Stewart coloca, “a audiência deveria ficar com medo que elas não fiquem juntas, mas é uma comédia romântica – elas vão ficar juntas!”

É deliciosamente convencional, enquanto é também completamente subversivo por causa da trama queer nesse gênero. E se tudo for bem para “Happiest Season,” Abby e Harper devem tomar seu lugar ao lado dos casais de “Simplesmente Amor” e “Tudo em Família,” sempre assistidos nos feriados.

Faz 15 anos desde “O Segredo de Brokeback Mountain,” que arrecadou 178 milhões de dólares mundialmente – e provou que um filme sobre pessoas LGBTQ poderia ser um sucesso com o público. Certamente houve filmes íntimos queer como “Carol,” “Me Chame Pelo Seu Nome” e “A favorita,” provavelmente dando a impressão de abundância. Mas nenhum outro além do filme “Com amor, Simon,” de 2018, produzido pela agora falecida Fox 2000 e a próxima comédia romântica gay de Billy Eichner-Nicholas Stoller da Universal (a produção está parada por causa do coronavírus), o horizonte para produções queer de estúdios tem sido árido.

O que tornou mais significativo que “Happiest Season” foi financiado pela Tri-Star Pictures da Sony, desde do início. Antes da pandemia ter atrapalhado o lançamento nos cinemas, seria o primeiro filme LGBTQ de um estúdio de Hollywood, assim como um filme comercial – e a primeira comédia romântica queer de um estúdio. Adicione a isso a co-escritora/diretora DuVall e a estrela, Stewart, que são abertamente gays e o marco se torna mais importante.

“Eu fiquei tão feliz de ter sido convidada para participar de algo que não estava, por falta de um termo melhor, ‘escondendo os vegetais’,” Stewart diz. “Ao mesmo tempo, é apresentado de uma maneira que inversamente diferente de algo que parece medroso ou com raiva. É para frente e aberto. O que eu quero dizer é que não tem que ser essa coisa exagerada para ser politizado!”

Mas já que é 2020 e nós não podemos ter coisas legais, ficou claro que “Happiest Season” não poderia ser lançado nos Estados Unidos – não com a indústria de cinemas domésticos nesse estado de calamidade. Adequando-se, em outubro, Sony, enquanto mantendo os direitos para distribuição internacional, anunciou que vendeu “Happiest Season” para Hulu. O filme irá estrear no dia 25 de Novembro, no fim de semana do Thanksgiving.

É decepcionante, mas “No mundo que estamos vivendo, realmente parecer ser a melhor opção,” DuVall diz. Assim que ela terminou o filme, ela lutou com a ética de lançar um filme nos cinemas, enquanto o COVID continua a matar milhares no país. DuVall diz que a Sony a incluiu nas discussões sobre o que fazer e uma vez que Hulu se tornou a solução, ela se sentiu “aliviada.”

DuVall realmente quer que as pessoas vejam “Happiest Season,” é claro: “Mas eu não quero que elas arrisquem a coisa mais importante que eles têm para assistir.

DuVall tinha 13 anos quando ela começou a fazer aulas de atuação e se formou na County High School para artes em Los Angeles. Ela começou a frequentar audições aos 18 anos e rapidamente conseguiu papeis como convidada em séries de TV de sucesso (“ER,” “Buffy, a caçadora de vampiros”), seguindo para papeis maiores em filmes (“Mal posso esperar,” “Mistério na Faculdade”). Apesar dela ser assumidamente lésbica desde que era uma barista no Buzz Coffe em West Hollywood, publicamente ela ainda estava dentro do armário – principalmente ao ser mais reconhecida como atriz.

Então DuVall, mais do que qualquer um, está surpresa em se ver aqui – uma cineasta gay, divulgando sua comédia romântica natalina lésbica. Para ilustrar seu espanto, ela menciona o clássico cult de Jamie BabbitNunca fui Santa” (2000), parte do boom da década de 1990 de filmes indie gays e lésbicos, para usar a terminologia da época, o que ao lados doas produções da televisão “Na Real,” “Ellen” e “Will e Grace” era finalmente o início da representação da vida de pessoas queer.

Em “Nunca fui Santa,” DuVall interpreta Graham, uma adolescente lésbica de uma família rica enviada pra um acampamento criado para curar a homossexualidade. Lá, ela se apaixona por Megan (Natasha Lyonne), que não está bem com fingir que é hétero como Grafam está – e quer declarar o amor delas ao mundo.

DuVall diz: “Se você me dissesse quando nós estávamos fazendo “Nunca fui Santa” que eu estaria fora do armário, fazendo um filme gay, falando sobre como eu sou gay e que minhas experiências gay me ajudaram, eu diria que você é louca – o tamanho do medo que eu sentia na época e como eu queria esconder. E o quanto eu escondi.”

Babbit, amiga de DuVall (e minha também) diz que ela baseou Graham em DuVall, incluindo a determinação de permanecer no armário. Promover o filme era um ato de equilíbrio. “Eu estava tentando respeitar os limites dela, mas também convencendo ela a estar em todos carros alegóricos da parada Gay para imprensa,” Babbit diz com uma risada. “Não há um jeito fácil de estar dentro do armário. Você sempre faz sua família gay se sentir mal.”

E assim foi para DuVall por anos, mesmo com sua persona andrógina e seu efeito cáustico em filmes como “Nunca fui Santa” iria eventualmente resultar em um número infinito de gifs esperançosos no Tumblr.

O ponto de virada veio quando ela se sentou para escrever “A intervenção,” em 2012, sua estreia como diretora.

Era uma história de reencontro sobre um grupo de amigos no início da meia idade, se reunindo para um fim de semana de confrontações e revelações – e a uma pessoal também, já que DuVall tinha recentemente ficado sóbria. Quando ela estava escrevendo a personagem que ela iria interpretar, ela se lembra de pensar, “Bem, talvez minha personagem tem um namorado!”

Mas espera, ela queria criar uma personagem próxima dela – então DuVall controlou seus impulsos héteros, ritualizados por tantos anos. “Eu estava tipo, O que você está fazendo? Só escreve caralho!” ela diz.

Sua personagem, Jessie, termina sendo uma lésbica com fobia de compromisso, que, depois do fim de semana esclarecedor, torna-se disposta a desistir de seu jeito galinha para se mudar com sua namorada, Sarah (Interpretada por Lyonne, uma das melhores amigas de DuVall). “A intervenção” foi bem no Festival de Sundance em 2016, onde foi nomeado ao prêmio do Júri, e Melanie Lynskey (outra melhor amiga de DuVall) ganhou um prêmio de atuação. Foi vendido no festival para Paramount Home Media, estreando em agosto.

Mais importante, o filme deu a DuVall a oportunidade de sair do armário com facilidade. “Não é como se eu tivesse feito uma grande campanha, ou um a capa de revista ‘Sim, eu sou gay’, ou qualquer coisa do tipo,” DuVall diz. “Eu apenas comecei a viver a minha vida – sendo fotografada com minha parceira e não ficando preocupada com pronomes na entrevistas.

Se “A Intervenção” era o filme de estreia de DuVall – feito em 18 dias por 450,000 mil dólares – “Happiest Season” era algo maior. DuVall já tinha o roteiro delineado quando ela conheceu Holland em “Veep” durante a sexta temporada, na qual DuVall interpreta uma agente impassível, do serviço secreto, Marjorie Palmiotti, e Holland tinha um papel recorrente como a intrigante Shawnee Tanz. Elas se deram bem. “Escrever é tão solitário, especialmente escrever comédia,” DuVall diz. “Ela era basicamente uma estranha e eu estava tipo, ‘Ei, você quer trabalhar nessa coisa comigo?”

Após terminar o roteiro, elas começaram a trabalhar com o produtor Isaac Klausner na Temple Hill (Com amor, Simon), e procurou um estúdio para o filme. Eles se reuniram com “vários“, DuVall diz, mas “Sony foi o estúdio que viu o filme do mesmo jeito que eu via.”

DuVall fala sobre escalar as protagonistas, “e a Kristen parecia ser a única escolha para Abby.” Depois de enviar o roteiro, DuVall viajou para Alemanha, onde Stewart estava filmando o reboot de 2019 de “As Panteras”. “O roteiro me deixou curiosa sobre ela,” Stewart diz, notando a tendência de DuVall pela atuação dramática (“Veep” e “Nunca fui Santa” sendo as exceções). “Eu estava chocada que ela era tão boa na comédia, em escrever algo engraçado. Eu sempre levei ela a sério minha vida toda, você sabe o que eu quero dizer?”

Enquanto DuVall construía o resto do elenco, ela e Stewart conversaram sobre quem deveria interpretar a Harper, que DuVall diz “é o papel mais difícil de todo o filme.” Quando Davis (Halt and Catch Fire) conseguiu o papel, pareceu certo para Stewart: A personagem tem que ser tão conquistadora, Stewart diz, que a audiência vai acreditar “que eu não estaria no meio do filme tipo, ‘certo, eu estou saindo daqui'” Quanto a Davis “ela tem essa natureza aberta, extremamente boa, consciente e deliciosa,” Stewart adiciona. “Eu não consigo ficar com raiva dessa pessoa.”

Em vez de começar a produção em Pittsburgh na primavera de 2019, quando tudo foi acertado com a Sony, DuVall esperou para filmar no inverno. “A qualidade da luz é diferente e eu só queria que fosse real,” ela diz. Nesse intervalo, ela, Stewart e Davis puderam se encontrar: “Nós passamos bastante tempo falando sobre o roteiro e falando sobre as cenas e achando pequenas coisas para elas como casal. Foi uma experiência bem colaborativa e eu acho que transparece na tela.”

O público vai ver em breve – talvez durante discussões no Thanksgiving sobre quem mais rouba a cena (Aubrey Plaza como a namorada da escola de Harper, Holland como a maltratada Jane e Levy, em seu primeiro papel desde “Schitt’s Creek”, são todos apostas sólidas.)

E apesar de DuVall não ter se escalado dessa vez, ao contrário com “A Intervenção”, ela ainda está atuando em produções de outras pessoas. Embora ela não saiba ainda se vai estar na próxima temporada de “O Conto da Aia,” ela é atriz de dublagem, co-criadora e produtora executiva da próxima série animada da Fox “Housebroken,” sobre um cachorro que coordena um grupo de terapia numa vizinhaça de animais. (DuVall interpreta Elsa o corgir.) Seu próximo projeto em desenvolvimento é “High School,” uma adaptação da memória de 2019, de Tegan e Sara Quin. Trabalhando com Plan B e Amazon Studios para IMBb TV, DuVall já escreveu o piloto e dirigiu também.

Citando Céline Sciamma e Denis Villeneuve como diretores que ela admira, DuVall diz que ela amaria emular a carreira eclética de Danny Boyle: “Os filmes que ele faz são tão variados e você fica tipo, ‘Espera. Você esse filme esse filme e você fez aquele filme?'”

“Como uma atriz, eu realmente gosto de interpretar em todos os tipos de gêneros. E eu planejo fazer isso também como diretora.”

Stewart está animada para ver DuVall florescer. “Eu mal posso esperar o que ela vai fazer no futuro,” Stewart diz. “Ela é muito gentil ao persuadir todos a entender exatamente qual é seu plano, o que faz dela uma diretora poderosa. E seus interesses são tão diversos.”

“Então legal, você fez um de natal gay – que porra você vai fazer da próxima vez?”

Fonte | Tradução: Equipe Kristen Stewart Brasil