Em entrevista com Yo Dona, Kristen Stewart conversa sobre rótulos,ser o centro de atenções e a importância de sua postura, como figura pública, entre outros assuntos.

Nomeada a atriz da década pela associação de críticos de Hollywood, a protagonista da saga Crepúsculo acumula prêmios e está a ponto de dar o próximo passo: Ficar atrás das câmeras com uma história sobre uma mulher incompreendida. Como abordará? “Com força e delicadeza,” assegura.

Yo dona: Você se identifica com os exemplos trágicos de pessoas que falham em superar a pressão dos rótulos?
Eu nunca me senti rotulada. Eles me jogaram na linha de frente quando eu ainda era bem jovem, meu relacionamento com o mundo era mais imaturo que agora. Mas eu nunca fui umas dessas pessoas que diz “É culpa das pessoas, ninguém me entende.” Na verdade, a opinião que as pessoas têm sobre mim não têm que estar errada. Afinal, essas ideais são resultados de informações que, conscientemente ou inconscientemente, eu transmite a eles. Jean Seberg entendeu muito rápido que tudo que aconteceu com ela estava além do seu controle, havia estruturas estabelecidas que ela teve que se adaptar. Eu sinto o mesmo. Sobre rótulos, eu acho que é um assunto interessante, especialmente quando eu penso sobre a revolução sexual que nós estamos vivendo atualmente. Hoje é bem mais fácil falar sobre isso que há alguns anos, hoje as coisas não são só branco ou preto.

Você faz. É graças ao empoderamento feminino e ao #Metoo?
Eu sou orgulhosa de ser parte disso. Francamente, eu não entendo como não aconteceu antes.

Sua decisão de dirigir The Cronology of Water tem algo a ver com a grande liberdade, quando se trata de falar sobre sexualidade e gênero?
Cem por cento. O filme fala sobre uma mulher que tem a voz presa em um corpo que foi vítima de abuso. Até ela decidir reviver a dor para olhar para dentro de si. E ela encontra uma poderosa voz, primeiramente no papel e depois no mundo, sem nenhum pingo de vergonha. Há poucas histórias de autoajuda sobre mulheres que não estão propensas aceitar o mecanismo estabelecido e proposto várias vezes pela sociedade e tradição. A história de Lidia Yuknavitch é suja e primitiva. Quando eu li, eu tive a mesma impressão que senti quando li Ham on Rye, de Charles Bukowski.

Bukowski com uma perspectiva feminina? É quase aterrorizante.
Sim, vergonhoso em dobro. Pela violência sofrida e pela vergonha. O sentimento que eles não nos entende e não aceitam como nós somos.

Um projeto emocionante, como você planeja abordá-lo?
Com força e delicadeza.

Como você começa essa nova fase da sua vida e carreira? Em Ameaça Profunda você está com a cabeça raspada, numa versão submarina de Alien e no novo remake de As Panteras você luta com suas mãos e faz um pouco de comédia.
No novo filme As panteras nós vamos além do clichê de três mulheres com habilidades extraordinárias que trabalham para um filantropo misterioso. Isso já é uma história bonita, mas nesses filme há algo além, algo que é típico do nosso tempo. O mundo está cheio de mulheres com habilidades excepcionais, agora nó estamos cientes disso. Sem falar de super heroínas. O que eu gosto mais é que não é um filme de ação, no qual elas fazem as mesmas coisas que os homens fazem. Não é um “nós podemos fazer também”, mas “olhe os resultados que a força feminina consegue obter.”

Há momentos em sua vida, fora dos filmes, quando você sente que está usando sua força?
Quando eu voto. Todos nós nascemos e somo criados em uma família, classe social, grupo de amigos e nós geralmente consideramos eles pares que vão durar para sempre, mas não é assim. Nessas questões nós também podemos exercitar nosso direito de decidir, nós podemos nos cercar de pequenos ou grandes mundos que nos definem, o que amplifica nossa força. Procure força em outras pessoas e entenda que a força deles multiplica a sua: Isso foi uma grande descoberta para mim. Quando você (ela pula na cadeira com entusiasmo) “Nós fizemos, nós estamos alinhados, e alguém responde: Sim!”

Entretanto parece que nessa nova fase da história, novas formas de atrocidades do machismo estão surgindo.
Sim, há um tipo de homem que não irá desaparecer. A verdade é que algumas pessoas que são bastante queridas por mim são homens brancos mais velhos. Nós não podemos generalizar.

Eu posso ter o nome de algum desses homens?
Você está brincando comigo, né?

Muitas figuras públicas querem e ao mesmo tempo tem medo de ser o centro das atenções. Você conseguiu evitar essa paranoia?
De acordo com uma história bastante popular na America do Norte, alguns indivíduos, só por serem o centro de atenções, deixam de ser pessoas e se tornam desenhos, criaturas bidimensionais. E há muito dinheiro que cerca isso, muitas pessoas pegam um pedaço do bolo. Para entender que você é uma parte de uma máquina e que você é uma engrenagem, permite que você se concentre apenas nas opiniões das pessoas que são importantes para você e ignore o resto. Antes esse assunto me deixava louca, mas agora eu vejo a força que há por trás.

Em Seberg, um personagem diz: “A revolução precisa de estrelas do cinema”. Eu acho que você pensa o mesmo.
Em certas situações, nós podemos ajudar na mudança, estou convicta. É difícil fazer a revolução estando numa *caixa de fruta* e gritando por um megafone. De certa forma é mais sutil e requer mais tempo. Influenciar ou não influenciar na política depende bastante da suas companhias. Se eu posso ajudar alguém a não ficar envergonhado deles mesmos ou de suas decisões, eu ficarei feliz por fazer isso. E se o preço que tenho que pagar é ser fotografada enquanto faço minhas compras no mercado. Eu aceito. Deixá-los olharem dá um grande senso de poder. É importante não tentar controlar o que o mundo acha de você. Francamente, eu não dou a mínima.

Fonte | Tradução:Maria Clara Equipe Kristen Stewart Brasil