Kristen Stewart e Benedict Andrews falam sobre Jean Seberg e sua vida em entrevista com The Age.

A maioria das pessoas se lembram de Jean Seberg como uma mulher astuciosa com um ousado corte de cabelo raspado, vendendo o Herald Tribune em Breathless, o filme revolucionário da década de 1960 de Jean-Luc Godards, sobre um romance entre um Gangster e uma Americana ingênua. Isso era tudo que Kristen Stewart sabia sobre Jean, ela admite, antes de receber o roteiro de Seberg. Foi assim que ela soube que Seberg era uma ativista – mais importante, uma apoiadora dos Black Panthers – que foi perseguida, investigada e teve sua carreira destruída por operações secretas do FBI.

“Descobrindo a história real dela, eu fiquei surpresa pelo fato de que não é comumente conhecida,” diz Stewart. “Mas eu não acho que minha visão dela seja redutiva, pois eu não estava surpresa pela maneira que ela levava sua vida. É perceptível quando ela está em cena que seus olhos estão abertos. Ela não é uma atriz performática, ela é instintiva e muito presente.” O filme começa em 1989, com a atriz desembarcando em Los Angeles para a audição de Paint Your Wagon. Paris, onde a atriz morava com o romeno Gary, seu segundo marido, havia explodido em uma revolução. Nos Estados Unidos, o movimento de direitos civis estava cada vez mais militante. Claro que alguém como Seberg, inspirada pelo espírito do período, iria se posicionar politicamente.

Benedict Andrews, o diretor australiano, diz que ele pensou em Stewart para o papel assim que ele leu o roteiro de Joe Shrapnel e Anna Waterhouse. “A partir daquele momento, eu não conseguia imaginar fazer o filme semm ela.” Há paralelos em suas biografias – ambas tiveram papeis de destaque durante a adolescência, ambas foram vilanificadas nos Estados Unidos e encontraram uma nova liberdade no cinema Europeu – que era interessante, sem ser crucial. Quem fosse interpretar Jean tinha que “parecer como um dos ícones do cinema do século 20” mas isso não era difícil “Uma modelo pode ter um corte de cabelo daqueles”. A parte crucial era menos tangível.

“Jean tinha um tipo de abertura radical, um tipo de qualidade luminosa e eu não queria alguém tentando representar isso,” diz Andrew. Representações podem funcionar em um filme biográfico, ele diz, mas ele não estava procurando isso. “Eu queria um tipo de verdade bruta. Eu acho que Jean possuía isso e que a Kristen possui isso também; Em maneira diferentes, elas têm uma essência que você não consegue representar.” Ele queria que Stewart encarnasse Seberg e permanecesse ela mesma. “Isso é o que eu acho que grandes atores fazem. Eles fazem ambas as coisas ou só é apenas uma imitação. E ela faz os dois. Ela é Jean e Kristen simultaneamente.”

O fato que Seberg estava tendo um caso com um líder do movimento negro, aqui chamado de Hakim Jamal (Anthony Mackie) era especialmente incendiário. Entretanto, o relacionamento central em Seberg é entre Seberg e seu perseguidor Jack (Jack O’Connell), um recruta recente da agência, que foi designado para vigiá-la e se torna obcecado por ela. Ela sabe de sua presença, porém ninguém acredita nela; ela é levada ao ponto da paranoia tanto pela sensação de estar sendo vigiada quanto pelo fato de ninguém mais acreditar na situação.

Andrews, cuja carreira tem sido majoritariamente no teatro, diz que essa perspectiva de dualidade é algo que só o cinema consegue oferecer. “Eu não consigo fazer isso no Teatro. E eu amo como isso funcionar em um nível emocional, essa conexão paralela com as duas delas. Isso é unicamente cinemático.” De certo modo, ele diz que o filme todo é sobre o relacionamento entre a câmera e o objeto. “Jack está filmando Kean com uma câmera, nós estamos filmando a Kristen com uma câmera. As técnicas de vigilância, são as mesmas técnicas do cinema. Nós vemos essas técnicas serem usada para criar imagens lindas e icônicas dela como Jean e também como um artifício de mentiras.”

O filme recebeu críticas mistas, tanto em Cannes (O filme participou do festival de Veneza e não em Cannes) e desde que estreou na Europa – do Telegraph “ágil e interessante” ao Indiewire que classificou com uma bagunça do início ao fim – mas os crítico ficaram unanimemente pela performance compromissada de Stewart. Jean/Kristen como Seberg é ansiosa, vulnerável, inteligente, bem intencionada e impulsiva; como uma das críticas coloca, ela brinca com o fogo, incluindo chamas que a própria criou. “Eu acho que ela tinha essa fome voraz por experiências, mas eu acho que mais do que isso, ela no fundo era uma humanitária,” diz Stewart. “Havia entrevista de pessoas que cresceram com ela em Nebraska onde eles lembram que ela consistentemente lutava pelos mais fracos. Então eu acho que seu ativismo iniciou precocemente.”

Se os atores deveriam se tornar garotos propagandas de causas políticas permanece sendo uma pergunta enfadonha, debatida mais vigorosamente durante o período do Oscar, quando as estrelas tem seus dois minutos no pódio. Alguns acreditam que com a fama vem a responsabilidade de se posicionar; outros acham que atores devem se prender apenas ao trabalho. Stewart não acha que atores são obrigados a defender uma causa. “Assim que você se sente coagido, se você sente que as pessoas estão extraindo coisas de você, é artificial. Ninguém tem direito sobre suas opiniões”. Atualmente, ela está mais confortável em ficar quieta se ela não tem algo específico a dizer. “Eu acho que é bem claro com o que eu concordo. Eu acho que seria bem chocante se eu fosse uma republicana fiel. Isso seria bastante chocante.”

As pessoas podem escolher ser um artista, ela diz. “Você não precisa ser alguém que represente suas ideias. Há um escapismo que é lindo e você pode fazer parte disso, com certeza.” Por outro lado, diz ela, qualquer pessoa que se identifique como artista é intrinsecamente política. “Não há maneira que sua arte não irá refletir a maneira como você vê o mundo em que vive. Pessoas que são compulsivamente artísticas usam sua política naturalmente. Mesmo sem saber que estão fazendo declarações, estão fazendo isso inadvertidamente. Se você não vive com medo de sua carreira fracassar e deseja se envolver no mundo ao seu redor, isso é um ato político.”

Fonte | Tradução: Maria Clara Equipe Kristen Stewart Brasil