Kristen Stewart é capa e recheio da revista Harper’s Bazaar do Reino Unido. Em photoshoot e entrevista feitos em Paris, a atriz reflete sobre sua vida, sexualidade e sua carreira. Confira:

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Em um grande salão de festas no hotel Shangri-La em Paris, eu consigo ouvir Kristen Stewart antes de vê-la, se trocando atrás de uma tela estampada em um canto distante. Sua voz é tão distinta – esse sotaque californiano baixo e fácil, onde todas as palavras saem juntas, e ela soa como se nada pudesse surpreendê-la.

Quando ela finalmente aparece para tirar sua foto em uma varanda com a Torre Eiffel no fundo, ela está em contraste perfeito com o ambiente delicado e dourado. Seu cabelo preto e loiro cai em sua testa, e ela está usando um vestido longo e preto, com uma gravata borboleta em sua garganta, condizente com seu status de embaixadora da Chanel. Ela passa por mim, um andar ousado e com ginga, e sorri. ”Sim,” ela diz, vendo meu rosto. ”É intenso. É um look e tanto.”

Logo, ela está de volta, e com outra roupa. Jeans rasgado, blusa branca e descalça: seu estado mais natural. Nós conversamos em um terraço quente, de pernas cruzadas no sofá. Eu não sei por que esperava que ela fosse relutante ou tímida, mas provavelmente porque é sempre assim que supõem que ela é, ou como ela se apresenta em fotografias, quando sua expressão algumas vezes parece impassível, relutante em contar qualquer coisa. Ou talvez seja como todos nós lembramos dela da época de Crepúsculo como a permanentemente torturada e doente de amor, Bella Swan. ”Eu tento evitar a palavra ‘estranha’,” Stewart diz, lembrando daquela época. ”Eu quero recuperar essa palavra, porque foi usada de modo tão violento contra mim.”

Hoje, Stewart é tudo menos estranha. Ela está relaxada, aberta, falante e expressiva, seus braços gesticulando enquanto ela fala, sua voz clara e confiante. Tome, por exemplo, como ela descreve encontrar Elizabeth Banks pela primeira vez (Banks dirigiu As Panteras, que estreia em novembro, com Stewart sendo uma das principais). As duas estavam na mesma festa no Festival de Veneza anos atrás. Stewart estava dançando, mas um pouco constrangida. ”Não me sentia tão sólida quanto agora,” ela diz. Banks, em contraste, estava se divertindo muito. Ela foi até Stewart, disse para ela que era uma fã e perguntou se ela estava se divertindo. ”E então ela disse a coisa mais irritante do mundo se fosse dita por outra pessoa,” disse Stewart, ”que foi, ‘Você tem que se divertir com isso.’” Stewart ri da memória. ”Eu fiquei tipo, ‘Não brinca! Estou tentando.’”

É assim que Stewart fala – franca, espontânea e com muitos palavrões. Ela parece totalmente certa e sem medo de dizer o que pensa. É como se algo tivesse ido embora: cuidado, certamente, mas também sua antiga antipatia com o todo o jogo publicitário que a assombrou em uma escala global desde o sucesso extraordinário de Crepúsculo. ”A cada dia que fico mais velha, a vida fica mais fácil,” ela diz, sorrindo amplamente.

Stewart tinha apenas 18 anos quando o primeiro Crepúsculo estreou. Como filha de uma supervisora de roteiros e de um assistente de palco, ela passou um tempo em sets quando era criança, e atua em filmes desde que tinha 10 anos de idade (seu primeiro foi Encontros do Destino, rapidamente seguido por O Quarto do Pânico com Jodie Foster). Mas foi a franquia Crepúsculo que a fez ser amada internacionalmente. Ela e seu parceiro de cena e namorado na época, Robert Pattinson, sentavam em conferências de imprensa com uma expressão traumatizada de horror em seus rostos. Eles se recusavam a discutir seu relacionamento, e em entrevistas geralmente havia um senso de que as paredes estavam de pé e se fechando. Na maioria das vezes, Stewart parecia que queria sair correndo.

”Quando eu e Rob estávamos juntos, não tínhamos um exemplo a seguir,” ela lembra. ”Tanta coisa foi tirada de nós que, ao tentar controlar um aspecto, ficamos tipo, ‘Não, não vamos falar sobre isso. Nunca. Porque é nosso.’”

Após o lançamento do último filme de Crepúsculo, a saída de Stewart do mainstream foi pronunciada. Ela atuou com Juliette Binoche em Acima das Nuvens, um papel pelo qual ela foi a primeira americana a ganhar um prêmio César. Suas escolhas foram variadas e inesperadas: ela interpretou uma médium em Personal Shopper e fez um filme sobre se apaixonar em uma sociedade sem emoções (Equals). Sua carreira se tornou, como ela descreve, ”o jogo mais aleatório de amarelinha.” Ela escolheu trabalhar com amigos ao invés de grandes nomes e não se importou em fazer o que ela chama de ”erros estranhos e arriscados.”

Mas agora, em outra reviravolta, existe As Panteras, seu filme mais mainstream em anos. A internet perdeu coletivamente suas cabeças quando o trailer estreou – Kristen Stewart, a garota mais legal do mundo, fazendo cenas de ação e comédia. ”Eu fiz As Panteras porque eu sou uma grande fã da Liz Banks e eu sempre senti que ela me dava segurança,” ela explica. ”Eu sempre senti que, tipo, ela não pensa que eu sou uma doida.” Ainda foi um ato de amizade, mas um que permitiu que Stewart mostrasse seu lado pateta pouco conhecido e suas habilidades excepcionais de luta. Quando seus amigos assistiram ao trailer, eles disseram para ela: ”Cara, é você. Finalmente!”

A ideia de Stewart como uma pateta parece improvável, e então tranquilizada: ela ainda consegue ser intensa. Olhando para esses anos passados, e a estranha sensação de ser um objeto de fascinação em sua adolescência, a faz refletir. Há vários aspectos de sua fama que ela acha assustador, mas o que a confundiu foi o senso de que seu público sentia que a conhecia e que eram donos dela, e então foram decepcionados quando ela não era o que eles achavam.

Foi como se ela se tornasse uma personagem, eu sugiro. ”Totalmente,” diz Stewart. ”Eu tentei dizer isso antes, e eu acho que nunca articulei direito… mas as pessoas ficam com raiva de você porque você está em uma posição tão alta, então se você não consegue segurar, você não merece. Eu nunca dei valor para a fama tanto quanto para as experiências que eu tive enquanto trabalhava, e isso me deixava tão perplexa… Algumas pessoas ficavam tipo, ‘Sua babaca ingrata!’ e eu ficava, ‘Sim, completamente, eu não quero ser famosa, quero fazer meu trabalho!’”

Hoje em dia, Stewart está mais tranquila. Ela sabe que sempre haverá expectativas, mas ela também não precisa alcançá-las. Quando ela olha para atores mais jovens e como eles lidam com sua posição – o ativismo no Instagram, o zelo pelo protesto, a habilidade de comunicar diretamente e honestamente com seus fãs – ela fica impressionada. ”Eles possuem essa influência insana,” ela diz. ”E a confiança! É desnorteante! Eu fico tipo, ‘como você é tão confiante? Você é tão jovem!” Algumas vezes, ela é cética: a sinalização da virtude pode ser um pouco forçada, um pouco no ponto demais. Ela não cita nomes, obviamente, mas descreve, de forma tentadora, ”algumas pessoas que são ativistas de verdade, realmente o rosto do progresso, e eu fico tipo, ‘Você é uma fraude deplorável! E tudo o que você se importa é com as pessoas olhando para você.’” Como eu disse, ela não tem medo.

Mas ela é grata, também. E é parcialmente graças a próxima geração, sua abertura e coragem, que ela encontrou sua voz, e não parece mais se importar com as consequências de usá-la. ”Eu costumava sentar em entrevistas e ficar, ‘Deus, o que será que eles vão me perguntar?’ Mas agora, literalmente, você pode me perguntar qualquer coisa!” Então eu acredito nela, e pergunto como é constantemente discutir sua sexualidade, agora que parece ter virado um assunto aberto para debate.

”Bom,” ela diz. ”Eu só queria aproveitar a minha vida. E isso se tornou uma prioridade maior do que proteger a minha vida, porque ao protegê-la, eu estava a arruinando.” De que jeito, eu pergunto. ”Tipo, você não pode sair com quem você está namorando? Você não pode falar disso em uma entrevista? Eu fui informada por uma mentalidade antiquada, que foi – você quer proteger sua carreira, seu sucesso e sua produtividade, e existem pessoas no mundo que não gostam de você, e eles não gostam que você namora garotas, e eles não gostam que você não se identifica como “lésbica”, mas que você também não se identifica como “heterosexual”. E as pessoas gostam de saber dessas coisas, então que porra você é?’”

A percepção de Stewart, que ela dá créditos para a geração mais jovem que deu confiança para ela, foi que ela não precisa responder essa pergunta. Ela não tem resposta. Ela não se identifica como bissexual, ela não se identifica como lésbica, ela não gosta de rótulos. Ela é uma pessoa diferente todo dia que acorda e gosta disso. ”Eu acho que estamos todos chegando em um lugar onde – eu não sei, evolução é uma coisa doida – estamos todos se tornando incrivelmente ambíguos,” ela explica. ”E isso é uma coisa linda.”

Ela aceita que ela que se tornou uma representante para essa ambiguidade. Mas ela não se importa. Se ela pode tornar a conversa sobre sexualidade mais fácil para qualquer pessoa, ela está feliz. Ela também não poderia ligar menos sobre o impacto que isso tem em sua carreira. No passado, ela diz, ”Já me disseram, ‘Se você fizer um favor para si mesma, e não sair segurando a mão da sua namorada, você pode conseguir um filme da Marvel.’” Ela parece quase entretida com a memória. ”Eu não quero trabalhar com gente assim.” Agora, em contraste, as pessoas se aproximam dela, atraídos por essa sexualidade indefinida, querendo fazer filmes sobre isso. Stewart balança sua cabeça em falso desespero. ”Literalmente, a vida é uma grande competição de popularidade.”

Pelos próximos anos – quem quer que ela esteja namorando – Stewart estará mais ocupada do que nunca. Voltando para quando ela era criança, no set com seus pais, ela disse para sua mãe que seria a pessoa mais jovem do mundo a dirigir um filme, e ela faria isso antes dos 18 anos. ”Ainda bem que não fiz isso,” ela diz agora. Mas irá finalmente acontecer ano que vem, quando ela se aproxima do seu 30º aniversário. Somente lendo 40 páginas da autobiografia, The Chronology of Water, sobre uma jovem nadadora lidando com vício, ela enviou um email para a autora Lidia Yuknavitch. ”Eu fiquei tipo, ‘Eu vou ler o seu livro até morrer,’” lembra Stewart. Ela comprou os direitos e passou anos escrevendo o roteiro, o qual ela leu em voz alta para Yuknavitch. ””Foi um banquete muito, muito gratificante, de uma experiência intimidadora,” diz Stewart. ”Eu gosto de ficar intimidada, então tudo bem.”

O roteiro não está finalizado – ela quer mantê-lo fluido, aberto para interpretação. Ela tem uma noção de como quer fazer isso, mas também entende a responsabilidade que é ficar responsável por um elenco e equipe. ”Eu sei como é precioso, eu já fiz isso antes,” ela diz. ”Eu mal posso esperar para ter certeza de que não vou estragar a chance de alguém de ser incrível.”

Ela não consegue acreditar em sua sorte: ela pode passar horas, anos, pensando e falando sobre seu livro favorito para tornar isso em algo novo. E esse é só o começo, ela espera. Existe uma dúzia de outros projetos que ela está interessada em fazer. Enquanto isso, ela não vai parar de atuar. De qualquer forma, dirigir é apenas uma extensão natural do processo – uma que ela espera que a tornará uma atriz melhor. Mas também existe uma atração, inevitável, para alguém que foi assunto de um olhar coletivo por tanto tempo, ao trocar de posição e ir para trás das câmeras. Em seu novo estado, se sentindo livre e compulsivamente honesta, talvez seja um lugar mais natural de estar.

E como ela coloca, antes de voltar para o salão descalça: ”A coisa que está realmente me incendiando é a ideia de colocar a bola para rolar – e não ser a bola.”

Fonte | Tradução: Equipe Kristen Stewart Brasil