Kristen Stewart com o Deadline antes da premiere de Seberg, seu novo filme, no Festival de Veneza. O filme fala sobre a atriz Jean Seberg, sua vida e suas escolhas que levaram até sua trágica morte e Kristen fala um pouco sobre o longa, política e mais na entrevista. Confira:

Kristen Stewart estará no Festival de Veneza amanhã para a premiere mundial de Seberg, um thriller político inspirado em fatos reais e um filme que representa uma das escolhas mais corajosas que a antiga Bella Swan fez desde sua estreia na fama com a Saga Crepúsculo.

Stewart já demonstrou uma sensibilidade para a arte – até se tornou a primeira atriz americana a ganhar um César Award, o equivalente francês ao Oscar – mostrando variação nos filmes enquanto não se afasta de grandes estúdios, com As Panteras estreando em novembro.

Ela é apaixonada por seu trabalho, igualdade de gêneros e por contar histórias “confrontantes”. Stewart também é consciente do alcance e influência que ela tem como celebridade, particularmente uma que estreou em uma franquia global. ”Tudo o que eu faço, toda conversa que eu tenho, o jeito que eu voto, os projetos que me atraem criativamente – eu acho que isso demonstra meus sentimentos, minha postura e minhas políticas… Seria impossível dormir sem ser realmente clara, aberta e honesta nesses tempos,” ela me diz abaixo.

Seberg, que anteriormente se chamava Against All Enemies e é dirigido por Benedict Andrews, fala sobre isso. O filme é focado em Jean Seberg, a atriz titular de Breathless, uma americana que passou metade de sua vida na França. No final dos anos 60, ela foi alvo do programa de vigilância ilegal do FBI chamado COINTELPRO. Por causa de seus envolvimentos políticos e românticos com o ativista de direitos civis Hakim Jamal (interpretado por Anthony Mackie no filme), ela também foi um alvo das tentativas do FBI de interromper, desmerecer e expor o movimento Black Power. Seberg morreu aos 40 anos no que provavelmente foi um suicídio. Amanhã completa 40 anos desde o acontecido.

Portando uma semelhança física impressionante com Seberg na apresentação da Amazon Studios, Stewart tem mais em comum com a atriz do que um ótimo corte de cabelo.

Em algumas escolhas que você fez no passar dos anos, parece existir mais uma sensibilidade europeia agora do que quando você começou. Foi uma escolha premeditada ir nessa direção?
Bom, eu comecei a atuar quando eu era muito nova e eu definitivamente não consegui nenhum trabalho comercial (risos). Quando criança, as primeiras coisas que você faz teste são para trabalhos comerciais ou na TV ou papéis para crianças que são obviamente um pouco menos complexas. Eu fui seriamente, tipo, cortada de cada teste para uma “menina fofa” que eu tentei.

Naquela época, não tinha como estar ciente da minha trajetória final. Mas faz sentido. Eu sempre fui uma criança muito séria e que pensava demais. Eu definitivamente não tinha medo de contar histórias confrontantes e estava muito mais interessada nisso.

Você trabalhou com Jodie Foster no começo da sua carreira. O quão influente foi esse encontro?
Eu acho que eu cresci com essa admiração por causa dela, porque eu sempre senti um parentesco com ela. Eu meio que a usei conscientemente como um exemplo de algo para lutar, então esse detalhe sempre foi muito atraente.

Sabe, existe uma coisa classicamente mais existencial e realística em termos de como é realmente viver uma vida, ter um cérebro e viver entre pessoas que possuem cérebros diferentes ao invés de contar essas histórias perfeitas. Eu sempre gosto disso.

Mas (trabalhar com Foster) foi como uma coincidência que, por sorte, me colocou em alguns lugares corretos. Eu definitivamente engrandeci aquele mundo inteiro antes de saber sobre ele.

Quando eu me mudei para a França 26 anos atrás, eu trabalhei no International Herald Tribune e aquela famosa foto de Jean Seberg em Breathless era uma fonte de orgulho para nós. Mas eu fiquei surpresa como eu sabia pouco sobre sua vida e as circunstâncias que esse filme revela. O que você aprendeu sobre ela?
Eu realmente só a conhecia como a garota do Herald Tribune, também. Eu não tinha visto nada além de Breathless. Eu sabia sobre o momento dégueulasse (no final desse filme). Eu sempre achei que ela fosse iconicamente legal. Eu achava legal que essa atriz agradou essa cultura que eu também estou interessada, mas eu nunca fui mais fundo do que isso. Eu li o roteiro e fiquei muito chocada, eu não fazia ideia sobre a história de seu final trágico. Eu fiquei interessada na complexidade de sua vida, mas antes eu só conhecia sua imagem.

Além de ser uma atriz americana que encontrou sucesso na França, existe algum outro aspecto da Jean que você se identifica?
Eu acho que a Jean era muito dedicada a contar as histórias menos comerciais, e por isso ela era atraída para as pessoas que ela conhecia em termos criativos. E também pelas causas – elas não eram digestíveis no país que ela vivia, não eram coisas que as pessoas queriam ouvir criativamente e politicamente. Então faz muito sentido que ela encontrou um lar mais aberto na França.

Jean também era uma mulher muito forte, mas que teve um fim trágico. Como ela passaria por Hollywood hoje em dia?
Estamos vivendo em uma época tão polarizada, eu acho, que por sorte temos menos – Quero dizer, eu não posso justificar isso porque existem pessoas que funcionam para preservarem suas carreiras e não refletem sobre como funcionam como humanos ou um senso político – mas eu acho que as pessoas estão com menos medo porque é tão pertinente agora. Não que não fosse naquela época. Estávamos saindo dos anos 50, existia uma mentalidade conformista na massa especialmente nos Estados Unidos e especialmente para alguém que queria manter seu sucesso.

Mas eu acho que agora, eu não sei, Jean atualmente teria mais uma equipe para evidenciar essas ideias. Eu acho que o clima político agora não deixa muito espaço para o meio termo, então eu gostaria de dizer que ela viveria melhor.

Eu gosto de pensar que não haveria um conglomerado opressivo para caralho para destruir a vida dela. Mas ao mesmo tempo, esse é absolutamente o mundo em que vivemos. Eu acho que iria depender do que ela estaria se misturando.

Cuidadosamente otimista, eu gostaria de dizer que seria melhor. Mas ao mesmo tempo, a razão seria forte agora porque eu acho que todos sentimos como se houvesse uma pessoa nos nossos ombros prontos para nos derrubarem se dissermos uma coisa errada.

Realmente existem paralelos com os dias atuais. Meio que conheça seu novo chefe, que é igual ao antigo chefe?
Eu acho que essa energia opressiva é ironicamente a base da nossa política agora. Quero dizer, o que estava acontecendo naquela época continua acontecendo agora e vai continuar futuramente. Isso é a América e um monte de caras no poder nunca vão ficar tranquilos com você tirando isso deles – eu acho que eles não ligam para quem eles precisam se curvar para manter isso.

O quão importante você acha que é hoje, e na posição que você ocupa, tomar uma atitude, falar e usar essa fama para levar a mensagem para frente?
Muito importante. Tudo o que eu faço, toda conversa que eu tenho, o jeito que eu voto, os projetos que eu me atraio criativamente – eu acho que isso demonstra meus sentimentos, minha posição e minha política. Eu acho que algumas pessoas são tendentes a ficarem em caixas de sabonete e eu acho que deveriam, outras tendem a fazer isso de modo mais silencioso, mas com intenção e exercem seu poder de diferentes modos. Mas, sim, eu acho que é absolutamente essencial que você represente a si mesmo, sabendo sua influência e o alcance que você tem. Eu acho que seria impossível ir dormir sem ser clara, aberta e honesta nesses tempos.

Existia uma percepção sobre a Jean que as pessoas queriam “a garota da camiseta.” Como alguém que foi identificada com um papel grande no começo da sua carreira, você sente que deixou essa conexão? Você gostaria?
Eu não acho que vá para lugar algum. Eu acho que cada passo que dei para esse lugar agora, posso dizer que me sinto sortuda que algumas pegadas foram apagadas, estou orgulhosa disso. Estou bem com isso.

Eu acho que a coisa com Crepúsculo é muito enraizada, o que é engraçado e um pouco louco para mim pensar nisso porque foi há muito tempo. Eu lembro como se fosse ontem, mas ao mesmo tempo parece outra vida. É engraçado ter isso constantemente como a base de quem eu sou em sentido cultural. Mas em sentido literal, eu não poderia estar mais longe disso. Mas tudo bem. É uma viagem. Tenho muito orgulho de fazer parte disso, eu gosto da equipe. Eu olho para isso com muito carinho, de modo cativante e bobo, como se estivesse abrindo um álbum da escola, tipo, ”Meu Deus! Uau!”

Você estava no júri em Cannes em 2018, que foi um ano crucial para a luta de igualdade de gênero no Festival. Como foi?
Foi um ótimo ano para eu estar lá. Eu já fui no Festival algumas vezes com filmes mas, ah cara, eu não sei, traz à tona uns sentimentos que eu mantenho com tanta reverência e uns que nem todos possuem, certamente, porque seria muito estranho – o mundo é muito mais do que apenas filmes.

Tenho muita sorte de ter estado lá com aquela energia, naquele ano em que se tornou inegavelmente ativo o falatório muito fervoroso em termos de ser mulher.

Cate Blanchett foi a presidente do júri, e honestamente eu acho que tivéssemos que representar a Terra e mandar um de nós para uma raça alienígena e dizer ”Hey, somos nós,” eu acho que seria a Cate. Então eu estava muito ativa o tempo todo, eu fui para a casa muito inspirada e animada. Meu botão de ligar foi destruído, então foi maravilhoso.

Veneza está recebendo atenção pela falta de diretoras na competição. Você seria jurada aqui?
Obviamente eu defendo ter mais mulheres e fazer mais filmes que são aceitos… Eu acho que se eles me pedissem para estar no júri de Veneza, seria um passo na direção certa.

Algumas vezes, se você age de modo egoísta, suas intenções e suas políticas são rebocadas, então egoisticamente eu iria querer fazer isso porque eu tenho tudo o que aprender dessa experiência – e eu acho que faz uma declaração muito sólida.

Fonte | Tradução: Equipe Kristen Stewart Brasil