Kristen concedeu uma entrevista para a revista espanhola Yo Dona onde fala sobre JT LeRoy, As Panteras e mais. Confira:

Kristen Stewart (Los Angeles, 1990) protagoniza o filme sobre a maior provocação literária desse século. De 2000 a 2006 a nata da cultura pop se rendeu ao carisma de um adolescente transexual, filho de uma prostituta, soropositivo, gigolô, viciado em drogas e vítima de abusos, que tinha desabafado em três livros cult: Sarah, Maldito Coração e Harold’s End.

Madonna, Tom Waits, Courtney Love, Bono, Lou Reed, Marilyn Manson, Calvin Klein ou Winona Ryder, eram alguns dos ilustres admiradores do retraído escritor, que respondia pelo nome JT LeRoy, e só concedia entrevistas por e-mail ou por telefone. Na realidade, era tudo invenção de uma autora do Brooklyn de 30 anos chamada Laura Albert, que disfarçou sua cunhada, Savannah Knoop, com óculos escuros e peruca loira, para que se passasse por seu alter ego em eventos públicos.

Durante seis anos, as revistas literárias de prestígio, as editoras e os famosos acreditaram na mentira. Savannah chegou inclusive a pisar no tapete vermelho do Festival de Cannes na estreia da adaptação do segundo livro de seu personagem. A complexa história agora virou filme, Jeremiah Terminator LeRoy, na qual Stewart dá vida a mulher que se passou por jovem transgênero. Conversamos com ela sobre este jogo de espelhos e identidades fluidas, do remake de As Panteras e da sua estreia como diretora.

YO DONA – Você conhecia essa história tão ardilosa e fascinante?
Kristen Stewart: Não. Quando eu li o roteiro, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: “Espere, isso aconteceu de verdade?”. E pensei que talvez tinham tomado a liberdade de inventar algumas coisas para tornar o filme mais interessante. Sério, as pessoas não podiam acreditar por tanto tempo.

Então, o que te convenceu para que você concordasse em ser protagonista desse filme?
Essa história pode ser vista como um experimento artístico enorme e estranho, que combinou montagem e performance. Eu adoro o personagem, mas também o ser humano. Savannah é uma pessoa generosa, inteligente, afetuosa e genuína. Me chama atenção que uma garota tão jovem, imersa nesse fenômeno midiático, torrencial, conseguiu se manter fiel a si mesma e criar uma identidade.

Ao se passar por JT Leroy, Savannah descobriu coisas sobre si mesma. O que você aprendeu?
Eu descobri que me sinto muito feliz por ser mais velha. Há dois anos eu me encontrava em um momento vital que eu me sentia esgotada, até o ponto de não saber com quem eu gostaria de compartilhar o meu tempo. Aconteceu comigo o mesmo que com Savannah: não estava claro se se encaixava, com que aparência queria se apresentar ao mundo.

De fato, o filme expõe o contraste entre a pessoa pública e a privada, assim que imagino que você se identificou.
E muito. Essa luta interna, essa exposição contínua… Sei o que você sente quando a forma como você se apresenta em público não se alinha necessariamente com como você se sente por dentro.

Qual tem sido o aspecto da fama mais difícil que você tem de enfrentar?
Quando eu era jovem, outros colegas de trabalho diziam: “Vai, relaxe, dê ao público e a imprensa o que eles querem. Sorria.” Mas eu não posso. E é assustador. Você está sentado em um cômodo na qual todo mundo te considera a estranha e o verdadeiro estranho é quem está ao seu lado, dando a impressão de ser o mais simpático. Conheço muitas pessoas que fingem dando a impressão de serem encantadoras. São tão previsíveis… Dizem o que se espera deles a todo momento. Todo mundo os adora. E acaba sendo irônico, porque muitas vezes o que mostram e o que dizem não é verdade.

Você ter superado essa etapa de confusão e se sentir mais madura são as motivos para você ter decidido dirigir seu primeiro filme?
Por eu ser mais velha? (Risos) Não, eu sempre senti essa vontade em meu interior. Fazer um filme é um processo precário e delicado, onde é necessário muitas mãos. E chegar até o final dessa experiência é como fazer malabarismo com um conteúdo precioso. É a melhor sensação que já experimentei. Desde criança tenho sido estimulada por essa comunhão de pessoas que compartilham uma ideia até o ponto de fazer qualquer coisa para realizá-la. E eu quero liderar essa comunidade, porque isso me animou no passado, me fez ser quem sou. Eu me sinto tão sortuda que quero compartilhar isso.

Laura Dern, que en Jeremiah Terminator LeRoy, interpreta Laura Albert, confirma o talento de Kristen Stewart como diretora: “Há poucos atores que transmitem essa qualidade, mas nesse filme, no qual tivemos que nos apoiar, eu vi como ela olhava tudo com olhos de diretora.”

Sua obra prima é um drama bisexual intitulado The Chronology of Water, baseado na autobiografia homônima da escritora e professora norte-americana, Lidia Yuknavitch.

Kristen, que em sua vida sentimental alternou os parceiros de um e outro sexo, está exultante sobre a complexidade dos projetos que lidera. “Não foi apenas a minha viagem de autodescoberta que me levou a interpretar personagens com fluidez de gênero. É que agora estão criando mais. É uma vitória. E eu me sinto feliz defendendo e contando essas histórias”, afirmou em entrevista a revista online de cinema IndieWire. Entre o leque de filmes que ela tem para chegar ao cinema, estão o suspense de época, Lizzie, onde deu a vida a amante de sua companheira de elenco, Chloë Sevigny, e a comédia romântica, Happiest Season, na qual ela descobre que sua namorada ainda não saiu do armário. Também há espaço para a cinebiografia: em Against All Enemies ela encarna a atriz Jean Seberg. E não dispensa os filmes de ação – em Underwater lidera uma equipe de investigadores submarinos que confronta um terremoto – ou o puro entretenimento, com o remake feminista de As Panteras, filme sobre o qual ela disse: “Foi uma filmagem na qual as mulheres se apoiavam, não nos limitamos a chutar bundas. A única razão para fazer uma nova versão era conectar a esses tempos de conscientização, sem que nenhuma mulher fosse considerada um objeto.”

Você falou com Savannah sobre a frustração de ser rotulada por sua orientação sexual?
Sim, eu adoro falar com ela sobre isso. Colocamos rótulos porque queremos dar nome às coisas para assim poder entendê-las. Também acontece comigo. Mas é pela falta de referências. A medida que o tempo passa eu me dou conta de que há muitas histórias inacabadas. Quando vejo um filme de época, me pergunto onde estão os homossexuais. Não estão contando sobre a vida deles. É por isso que ainda não desenvolvemos o vocabulário correto para estes tempos, mas chegaremos nisso.

Que mudanças você vê nas novas gerações no que se refere a aceitação da sua sexualidade?
Eles não dão muita importância a isso. Eu cresci cercada por meninos que se chamavam entre si de desajeitados sociais e diziam porra sempre antes de alguma frase, mas a nova geração mudou muito. Eu não acredito em grandes diferenciações, em reduzir tudo a homem e mulher, porque temos tanto no nosso interior. E eles assumem isso de maneira natural.

Falando sobre reducionismo, qual você acha que será a minha impressão sobre você depois de 20 minutos de conversa?
Cada um tem uma percepção das coisas segundo sua própria experiência, assim que você está no direito de escrever o que você honestamente pensa. Se você tenta dominar as coisas, pode ficar louca e não focar no que importa. Antes eu ficava nervosa e era uma obcecada por controle, mas agora, sinceramente, eu gosto de manter uma conversa sobre coisas que me preocupam, assim que você faz o que acreditar.

Fonte | Tradução: Equipe Kristen Stewart Brasil