O primeiro filme da Saga Crepúsculo completa 10 anos de lançamento nesse mês de novembro, e começamos hoje uma série de artigos traduzidos sobre os bastidores do filme e o impacto na cultura pop. Apesar de muito criticado, Crepúsculo abriu as portas para novos livros e filmes e na matéria traduzida de hoje, um dos jornais mais importantes da Inglaterra, The Guardian, fala sobre esse tópico. Aproveitem a leitura e comente o que achou com a gente no Twitter!

”Eu não tenho mais forças para ficar longe de você,” diz Edward Cullen para Bella Swan no primeiro filme de Crepúsculo. ”Você é como uma heroína, feita especialmente para mim.”

Assim começou o vício imprevisto de milhões de adolescentes nos cinco filmes da saga de vampiros, que levou US$ 3,3 bilhões em todo o mundo, se tornou um fenômeno cultural, e alterou o futuro do cinema liderado por mulheres para sempre.

Dez anos atrás neste mês, quando Crepúsculo estreou, ninguém tinha certeza se o sucesso dos livros de Stephenie Meyer ia transferir para as telas. Os melancólicos atores principais – a humana mordedora de lábios Kristen Stewart e o vampiro mordedor de pescoços Robert Pattinson – eram quase desconhecidos. A diretora Catherine Hardwicke teve apenas 44 dias de filmagens e um orçamento de US$ 37 milhões comparado com a taxa atual de US$ 200 milhões para os filmes de ação e fantasia.

De primeira, a história parecia ridícula: Drácula para idiotas. Bella, de 17 anos, chega em Forks para morar com seu pai divorciado. Na escola, ela encontra o pálido, diferente e distante Edward, que está sedento por seu sangue. (Há uma cena hilária onde Bella cheira sua própria axila no laboratório da escola, porque Edward, seu parceiro na aula de ciências, parece estar com nojo. É claro, ele está apenas tentando controlar sua fome vampírica.) Edward continua a salvar Bella com seus poderes sobrenaturais e eles se apaixonam, mas ele precisa se controlar para os abraços não virarem canapés. Além disso, o amor deles é combatido por lobisomens locais, vampiros e parentes. O que poderia dar errado?

Muitos críticos desaprovaram o filme (Roger Ebert descreveu como “conquista tépida”) e sua suposta mensagem sobre abstinência sexual recebeu críticas das feministas – mais sobre isso depois.

Mas os dois principais tinham uma química quase nuclear, e as jovens mulheres se identificaram com a determinação de Bella de escolher seu próprio destino – e também com sua escolha realista de roupas. Peter Bradshaw, crítico deste jornal, deu quatro estrelas para o filme e questionou: “”Quem de nós, na nossa adolescência, não transformou o horror irracional por sexo em uma queda louca e emo por um vampiro com bochechas definidas e com gosto por sangue humano?”

Acontece que, no fim de semana de estreia de Crepúsculo nos Estados Unidos, essa queda emo estava beirando a histeria em massa. O filme arrecadou US$69 milhões até o domingo. Os fãs, conhecidos como Twi-Hards, estavam em alta. Uma franquia de cinco filmes foi lançada – Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse, Amanhecer – Parte I e II – e o resto é uma história cheia de hemoglobina.

”A parte que chocou Hollywood foi que o sucesso do filme estava sendo abastecido por poder feminino,’” diz Melissa Silverstein do Women and Hollywood. ”O consenso geral em Hollywood é que filmes e livros feitos para homens e meninos são vistos como “universais”, e coisas que são feitas para mulheres e meninas são vistas como “outros”. Mulheres são vistas como um público separado. Essa separação das mulheres tem sido um dos problemas mais duradouros enfrentados pelo tão criticado “filmes de garotas”.’

A sensação Crepúsculo em 2008 fez com que os estúdios de Hollywood se animassem e prestassem atenção em uma nova demografia de compra de ingressos – jovens mulheres (e, sejamos honestos, suas mães com queda por vampiros). Por anos, as franquias de super heróis e aventuras serviu fielmente ao público de homens de 12 aos 25 anos, sem levar em conta o poder econômico da bolsa.

A corrida para saciar a imaginação das meninas adolescentes estava começando. Em 2012, Jennifer Lawrence estrelou no primeiro dos quatro filmes de Jogos Vorazes que lotaram as bilheterias; em 2014 Shailene Woodley apareceu no primeiro de três filmes distópicos de Divergente. Enquanto isso, na parte mais jovem do mercado, Valentee Frozen, da Disney, em 2013, deram um novo chute na narrativa das princesas.

Mas Jogos Vorazes e Divergente foram todos dirigidos por homens. Não foi até Patty Jenkins surgir com Mulher Maravilha que um outro filme dirigido por mulher superou Crepúsculo. Até agora, após 20 filmes dirigidos por homens no Universo Marvel, o vigésimo primeiro, Capitã Marvel será dirigido por uma mulheres. Na Comic Con em Nova York no mês passado, onde, antes de Crepúsculo, era a casa apenas de fãs homens e pouca mulheres, Hardwicke falou sobre o longo efeito do filme: ”Crepúsculo mudou a percepção, a ideia de que um filme sobre uma menina não seria popular, não faria muito dinheiro. Isso foi destruído. Um romance escrito por uma mulher, um filme dirigido por uma mulher. Nós quebramos recordes. As pessoas podem usar isso como munição – quando uma outra diretora vai para reuniões, eles vão dizer “Bom, eu acho que você não pode fazer isso,” e elas podem responder com, “Bom, Catherine fez. Crepúsculo fez.” Você usa isso como uma construção para as próximas coisas.”

Hardwicke, que fez os indies Aos Treze e Os Reis de Dogtown, lutou pela sua versão de Crepúsculo, escrita por Melissa Rosenberg, que foi fiel ao livro de Meyer. Uma versão anterior tinha Bella escapando do FBI em um jet ski, que de algum modo destruía a vibe sombria e arborizada do antigo culto dos vampiros. No entanto, a habilidade de direção e design de produção não foram propriamente valorizados pela franquia. Quando Hardwicke foi dita que o segundo filme, Lua Nova, seria feito em menos de um ano e com um orçamento apertado, ela recusou.

O estúdio, Summit Entertainment, pediu então para Chris Weitz assumir. Ele era o diretor de A Bússola de Ouro, uma franquia que não levantou vôo. Sem problemas. Lua Nova e o resto dos filmes de Crepúsculo foram dirigidos por homens: David Slade e Bill Condon. Hardwicke seguiu em frente e fez A Garota da Capa Vermelha e acabou de finalizar o remake em inglês de Miss Bala.

Hardwicke e sua diretora de elenco também merecem crédito por identificarem o poder de estrela em Stewart e Pattinson, que usaram sua fama para dar sinal verde em muitos filmes independentes, regularmente aparecendo em tapetes vermelhos em Cannes. Pattinson fez Cosmopolis com David Cronenberg e Bom Comportamento com os irmãos Safdie. Stewart fez Acima das Nuvens e Personal Shopper com Olivier Assayas.

Stewart interpretou anteriormente a filha de Jodie Foster em O Quarto do Pânico e apareceu em Na Natureza Selvagem, enquanto o crédito principal de Pattinson era Cedric Diggory na franquia Harry Potter. Hardwicke fez testes de química entre Stewart e quatro potenciais co-estrelas. ”Foi tipo uma central de encontros às cegas,” ela disse. E então eles se deram bem.

Em certo momento, Pattinson e Stewart namoraram dentro e fora das telas, o que provavelmente adicionou veracidade. Certamente, jovens mulheres estavam felizes de esperar por três filmes e meio antes da relação ser consumada em uma cena de lua de mel de quebrar a cama após um casamento glamuroso em Amanhecer – Parte I. Para muitos fãs, o filme não era sobre abstinência, mas sobre preliminares duradouras.

Olhando pelas lentes da geração #MeToo, há algo para dizer sobre um menino não pressionar uma adolescente para fazer sexo. (Apesar de ser bom lembrar que Edward parece ter 17 anos, na verdade, ele tem 109 em anos de vampiro. Não vamos entrar nisso.)

Mas muitas feministas disseram não para Crepúsculo e disseram que o vampiro era apenas uma metáfora para os perigos da relação sexual fora do casamento. Silverstein também aponta que ”as mulheres ficaram com raiva da superproteção do Edward e o consentimento de Bella. Onde está sua independência que ela mostra tão fervorosamente com seus pais e amigos? Também não vamos esquecer que Edward observa Bella dormir em seu quarto.”

Na Bitch Magazine, a Professora Christine Seifert rotulou a saga como “pornô de abstinência” e adicionou: ”Crepúsculo nos convence que auto negação é sensual. Reações dos fãs indicam que, no começo, a relação casta, porém sexualmente carregada, de Edward e Bella era sensual porque não era consumado.”

Claro, os próximos filmes se tornaram sobre quem seria melhor e mais protetor para Bella – Edward ou o lobisomem Jacob Black, interpretado pelo musculoso Taylor Lautner. A publicidade abanou as chamas do Time Edward vs Time Jacob, enquanto Bella ficava no meio dos dois.

Mas Bella sempre teve determinação, e o estranho poder de conseguir fechar sua mente para o poder de Edward de ler pensamentos. Em Amanhecer – Parte I, ela corajosamente lida com os terríveis problemas de dar à luz a um bebê vampiro-humano, mas em Amanhecer – Parte II, ela toma a forma de vampira e faz queda de braço com o resto do clã Cullen, logo após caçar um leão da montanha e cravar os dentes em sua jugular. No final, Bella é ativa e empoderada, uma líder em batalha, e os Twi-Hards amaram isso.

Hardwicke silenciosamente colocou algumas de suas próprias políticas no primeiro filme, também, particularmente quando se tratou de contratar alguns atores de cor, que não estavam no livro, que descrevia todos os vampiros com pele pálida, branca e brilhosa. (Os lobisomens da tribo Quileute eram em sua maioria nativo americanos.) Hardwicke tentou encorajar Meyer a escalar uma atriz japonesa para Alice Cullen, sem sucesso, mas ela conseguiu persuadir a autora que deveria ter diversidade entre os estudantes e que o ator queniano-americano Edi Gathegi deveria interpretar o vampiro Laurent.

Escrever esse artigo trouxe de volta algumas memórias ridículas de assistir a saga inteira como crítico, e levar minha filha, que tinha 10 anos quando o primeiro filme estreou, e meu filho, na época com 13 anos, para as premieres na Leicester Square no meio de gritos de fãs pulsantes. Eu lembro de uma vez estar tão imerso no mar de meninas excitadas por R-Patz que eu me perdi e tive que mirar no sotaque de Mark Kermode por cima da multidão para conseguir entrar no cinema. (Kermode sempre entendeu o fenômeno Crepúsculo, enquanto outros desdenhavam.)

Essa semana, eu maratonei todos os cinco filmes de Crepúsculo na Netflix em uma noite. Meu filho apareceu e notou que ele leu todos os livros, e que as guerras de vampiros eram um precursor para seu gosto por Game of Thrones, então existe um público masculino no demográfico, em algum lugar. Minha filha me mandou a paródia “Edward e Bella – uma leitura ruim de Crepúsculo”, o que eu recomendo. Tem 39 milhões de visualizações no YouTube.

Ver o filme pela segunda vez revela que R-Patz e K-Stew estão mais elétricos do que nunca na maior sequência de olhar-e-beijar do mundo. Mas outros elementos são totalmente estranhos.

Tem Michael Sheen como Aro, o vampiro Volturi que lê mentes – ou é Tony Blair? Tem o negócio perturbador entre Jacob e o “imprinting” de lobisomem em Renesmee, a bebê vampira-humana, e o planejamento de virar seu amante quando ela crescer. Tem um copo de sangue com canudo quando Bella tem desejos de grávida. Tem a juventude eterna e imortalidade concedida pelo vampirismo, então por que todos os atores parecem ter aplicado botox e pintados com tinta de palhaço? Pior ainda, existe a mensagem anti-vegana quando Edward explica para Bella que sua família é vegetariana e só bebem o sangue de animais. ”É como um humano em tofu – mantém você forte, mas nunca satisfeito.” Finalmente, é bom lembrar que Cinquenta Tons de Cinza começou com uma fanfiction de Crepúsculo.

No entanto, no geral, eu acho que o legado de Crepúsculo é positivo, para jovens leitores, para cinéfilos Twi-Hards, para o futuro dos blockbusters com mulheres protagonistas e diretoras. Eu deixo a última palavra para K-Stew na Interview Magazine: ”Qualquer pessoa que queira falar merda de Crepúsculo, eu entendo completamente. Mas tem algo nesse filme que eu sou infinitamente, até hoje em dia, orgulhosa pra caralho. Minha memória do filme ainda é muito boa.”

Fonte | Tradução: Equipe Kristen Stewart Brasil