Durante sua passagem pelo New York Film Festival, Kristen conversou com o site The Playlist sobre o filme ‘Certain Women‘, da diretora Kelly Reichardt, e também sobre o processo de criação da personagem Beth. Confira:

Para Kristen Stewart, trabalhar com a diretora Kelly Reichardt em ‘Certain Women‘ foi uma aula sobre tranquilidade. Livre de qualquer possível resíduo de afeto, ela foi encorajada a fazer menos, para conseguir mais. O resultado foi uma performance de complexidade emocional que foi parte de um capítulo do mais recente e talvez o mais discreto filme de Reichardt até agora, uma narrativa sobre a vida de três mulheres. Baseado em uma série de pequenas histórias da autora Maile Meloy, e ambientada em Montana, ‘Certain Women‘ também ganha forças dos talentos de Laura Dern, Michelle Williams (marcando sua terceira colaboração com Reichardt) e a novata Lily Gladstone, cuja performance é uma completa revelação. O filme é uma exploração paciente e singular sobre as experiências femininas – a coragem, a frustração, o anseio. Encontra a vida autêntica e quieta no que Stewart descreve como os momentos entre o que é geralmente mostrado na tela. E é nessa tragada de ar entre os momentos do dia a dia, na calmaria do que parece normal, que Reichardt encontra o oxigênio criativo.

Nós tivemos a chance de sentar com Stewart antes da exibição de ‘Certain Women‘ no New York Film Festival. Imprudente e disposta a discutir o trabalho com Reichardt, ela compartilhou sobre como o filme consegue a verdade da vida que nunca muda e do modo específico de como a diretora rebelde conta as histórias.

Ben Kinglsey descreveu atores como caçadores, procurando pela necessidade, a conexão, a verdade. Você pode falar sobre a “caçada” nesse filme?
O maior desafio desse papel foi somente ser – e não mostrar nada, não fazer você sentir algo intencionalmente. Kelly Reichardt cria um ambiente muito completo, é tudo muito natural. Digo, você está sempre tentando achar o seu lugar no mundo para que você possa viver dentro disso. Quando você tenta “mostrar” as coisas, não é muito honesto. Geralmente, quando você não está tentando mostrar as coisas que você acidentalmente revela. E você só pode fazer isso se você se encontrou naturalmente em um ambiente. Para isso, eu também tive que me colocar em um carro. A preparação para esse filme foi primeiramente essa longa viagem até Montana desde L.A.

O que eu realmente amo sobre os filmes da Kelly é que eles focam nesses momentos que acontecem entre os outros que são geralmente destacados nos filmes. Não há nada redundante e derivado em seus filmes. Todos são meditativos. Ela ordena que você pare de pensar até que esteja no fim. Eu fico muito absorvida em seus trabalho. Outras pessoas realmente gostam de embrulhar e entregar as histórias e ter certeza de que você pode consumi-las desse jeito estranho que eles querem. Os filmes dela não são assim.

E é interessante que você falou sobre o foco da Kelly sobre esses momentos da vida e essa vontade de se colocar em um carro. Além de sua personagem literalmente dirigir por quatro horas para ensinar uma aula, cada uma das outras personagens do filme estão no carro indo de lugar a lugar. E não é tratado como transição, é tratado como carne em osso.
Totalmente. É uma viagem, não é? Todas essas três mulheres querem alguma coisa. Elas estão lutando, realmente sendo trituradas contra algo que é imutável. Nenhuma delas está se auto engrandecendo. A maioria das “histórias de mulheres” são tipo, “Oh, eu tenho que superar esse caso e é uma grande coisa e é muito ético e a única coisa certa a fazer.” Sinceramente, isso é demais. Eu acho que é muito mais corajoso focar em coisas pequenas que acontecem na vida que não são necessariamente sobre o que você faria um filme. Isso é audacioso. Essa monotonia que elas estão, aparentemente em vão, todas querendo algo que não podem ter, é difícil de assistir e realmente relacionáveis.

Absolutamente.
Outra coisa também, é que elas não querem ser parte de uma instituição. Há essa luta contra a dinâmica típica de um casamento. Há essa luta contra o fato de que as mulheres não são necessariamente ouvidas burocraticamente e as coisas não fazem sentido, são ilógicas e muito frustrantes – e você não vai mudar isso. Então, com a personagem da Lily [Gladstone], ela quer uma amiga e a atenção de alguém que não faz ideia de que ela existe. E no meu caso, ela quer se sentir válida e isso não vai acontecer. Então, eu fico fascinada com o jeito que a Kelly as junta.

E sem uma urgência para serem resolvidas.
Sim. Totalmente. É uma rotina devagar. É exaustivo pra caralho.

Parece que se fossemos olhar para o horizonte, a história dessas mulheres ainda estaria acontecendo.
Totalmente. Elas não resolvem. Exatamente. Não é como se a narrativa fosse encerrar. É a verdade da vida de que não vai mudar.

Eu penso sobre o que David Foster Wallace escreveu sobre a próxima geração de escritores rebeldes. Que eles irão “tratar os velhos e fora de moda problemas da vida com reverência e convicção.”
Absolutamente. Isso ocorre muito na literatura, só não ocorre no entretenimento. Esse sempre foi um dos melhores aspectos de bons livros. Sim, eu realmente amo ser parte da indústria do cinema. Eu não amo ser parte da indústria do entretenimento. Esse filme é entretenimento por natureza pelo modo que é apresentado. Digo, para algumas pessoas será entretenimento, mas não para todo mundo. E tudo bem. É muito meditativo e autêntico. Cada um dos filmes da Kelly são únicos para ela. Sua perspectiva é realmente visível no trabalho e elas não se parecem com nenhuma outra. É raro.

Você teve que ajustar seu processo para a quietude desse mundo?
Sim. Eu percebi que conforme estou ficando mais velha, estou dependendo menos dos meus nervos. Usar os nervos quase faz você se sentir melhor de um jeito porque parece que você está trabalhando muito, mas na verdade, é distrativo, e não é o que você realmente precisa. Eu costumava abordar tudo tipo “argh!”- com força total. Nesse caso, eu tive que largar tudo – eu interpretei muitas personagens que o melhor jeito de servi-las era se permitir ser elas e não mudar muito.

Mas recentemente, eu tenho interpretado alguns papéis que realmente precisam de uma dose particular de idiossincrasia e seria errado se eu trouxesse muito de mim mesma para elas. Nesse caso, Beth não se parece em nada comigo. Realmente nada. Ela é fofa, e há algo muito distante nela. Eu sou muito diferente e isso foi interessante. Eu tive que me livrar de tudo o que é meu. Tive que me livrar de todas as coisas que são identificáveis até esse ponto. Isso soa um pouco estranho, mas é verdade. A calmaria foi uma coisa realmente interessante. Diz muito sobre Kelly. E, se eu estragasse alguma fala, ela falaria, “Oh, na verdade é isso.” Ela ama muito suas falas.

Eu estava me perguntando o quanto realmente aparece no roteiro.
Tudo. Cada palavra. É chocante. O roteiro é lindo. Se eu começasse a reformular, ela realmente queria do jeito que estava nas páginas.

Ela está pintando.
Ela está pintando, cara. Ela é muito calma. Ela não é do tipo de cineasta que fica, “Ok, nós vamos começar às seis, vamos jogar no ombro e encontrar. Vamos brincar e dançar.” Kelly fica, “Não. Nós vamos compor a cena e filmar.” É legal. Especialmente porque a maioria dos diretores independentes hoje, esse é realmente o visual do Sundance. É tipo, os filmes americanos independentes: jogue no ombro de alguém e encontre. Ela não é assim. Ela é realmente calma, mas de algum jeito ainda faz com que não seja assim. Ainda parece muito natural.

Fonte | Tradução: Equipe Kristen Stewart Brasil