Kristen é capa da edição de agosto da revista americana Marie Claire e a atriz concedeu uma entrevista onde ela fala sobre sua infância, beleza e sobre estar em paz consigo mesma. Confira:

Kristen chuta de volta

Após anos intensos aos olhos do público, Kristen Stewart, estrela de American Ultra, está seguindo em frente fazendo algo pela primeira vez impensável para ela: aprendendo a deixar ir.

É um anoitecer úmido no centro de Atlanta, e Kristen Stewart está localizada no Saltwood Charcuterie & Bar no The Loews Hotel, e suas pequenas pernas estão balançando livres enquanto ela fala sobre a prisão feminina. Não uma penitenciaria no estilo de Orange is the New Black – é mais um tipo de encarceramento psicológico e social que todas as mulheres sentem em vários pontos de suas vidas, quando esperam que sorriam, agradem, suportem, aceitem, sejam graciosas, tolerem, peçam desculpas, curvem-se, sejam felizes. Stewart, 25, sabe muito bem sobre a prisão feminina: como uma mulher pode ser punida por não seguir a linha, por não refletir o que a cultura considera que ela deve, por não ser “eu acredito que as palavras operativas sejam: acessível, fácil e sem complicações,” ela diz com rolando os olhos exageradamente.

Stewart, na cidade filmando o drama militar de Ang Lee, Billy Lynn’s Long Halftime Walk, não é, e nunca vai ser, alguma dessas coisas. Ela passou anos sendo criticada por poses desconfortáveis no tapete vermelho, ou por não brilhar em talk-shows, ou se atrever a ter desejos além dos que o público apontou para ela porque eles acreditaram que tinham o direito de moldar sua personalidade, já que ela era uma jovem menina em uma série de filmes baseados em livros best-sellers. Finalmente, ela decidiu abraçar os rótulos rebeldes jogados em seu caminho e dizer: “Foda-se isso tudo!”

“Eu ateei fogo no meu universo,” ela admite com um sorriso malicioso, “e eu observei ele queimar.” Stewart abaixa a cabeça, puxa a bainha de seu simples moletom preto. Abana para longe um mosquito. Puxa uma meia caída em seu tênis Converse. “Falando com franqueza,” ela diz, por fim, levantando seu queixo e bebendo um gole de sua vodca tônica, “foi um período muito traumático no começo dos meus 20 anos que começou algo em mim que foi mais,” ela pausa, e então encontra a palavra, “feroz.”

Ela opta por não elaborar, e ela não precisa se preocupar. O escrutínio público de sua vida pessoal é implacável, os detalhes desempacotados e entregados para a mídia como se fosse comida de passarinho, quando os tablóides causaram estragos em sua relação de longa data em 2012, ela divulgou um pedido sincero de desculpas, mas abaixar sua espada não ajudou muito a acalmar as massas, e Stewart acha improvável ir por essa rota no futuro. “As mulheres estão sempre pedindo desculpas. Eu faço isso o tempo todo. Temos esse desejo natural de agradar,” ela diz.

Assim como no esquete de Amy Schumer, onde um grupo de mulheres faz nada mais do que pedir desculpas por cada respiração, Stewart entende o esforço de esperar parecer generosa até quando acelera sua própria abnegação.

“É estranho porque é esse instinto que nos faz incríveis e admiráveis,” ela explica. “As mulheres nos aproximam. Mas é chato que o que nos faz valer o nosso peso é o que entra no nosso caminho.” Ela suspira. “Ultimamente, eu tenho feio menos do [faz uma voz de choro aguda] ‘eu sinto muito’ e mais do ‘não. Foda-se. Jesus.'”

Stewart toma mais um gole de seu cocktail, a liberação de deixar sua velha personalidade para trás é uma coisa para se contemplar. “O público meio que me queimou na fogueira,” ela diz. “Mas tudo bem, eu aguento. Não estou morta.”

A atriz cresceu no coração de Woodland Hills, California, com pais na indústria (seu pai é gerente de palco e produtor, sua mãe é uma supervisora de roteiro e diretora) e três irmãos. Ela era ferozmente competitiva quando criança, indo em direção à trilha, futebol, basquete – qualquer saída para a “energia cinética que eu tive na maior parte da minha vida.”

Ela lembra de um incidente no ensino fundamental quando seu físico enrolado lhe caiu bem. “Havia essa menina, e ela fazia essa coisa onde ela pegava outras meninas pelo cabelo e empurrava. Uma vez, ela estava chegando perto do nosso grupo e eu estava tipo, ‘NÃO! Você quer mesmo fazer isso?’ Pensando, eu nunca vou ser capaz de apoiar isso,” Stewart ri. “Eu estava protegendo minha pequena menina que não tinha um soco tão forte quanto o meu. Mas na verdade, isso encerrou as coisas.”

A auto-descrita moleca no ensino fundamental, de cara lavada e seguindo uma moda ambivalente, Stewart lutou quando fez 13 anos e “de repente, não era mais legal ser um dos meninos.” Ela nunca se esqueceu de um momento na adolescência quando um amigo anunciou “alto, na frente de todo o nosso grupo, ‘Kristen não é uma garota. O que ela é?’ E eu apenas morri. Foi um colapso totalmente clichê e inseguro, quando eu estava tipo ‘eu me odeio pra caralho.'”

Stewart se encolhe com a lembrança. “Muitas pessoas dizem, ‘Oh, deve ter sido muito fácil para você.’ Você acha que porque sou uma atriz eu não tive uma progressão normal de auto-ódio?”

“Eu tenho um radar incrível para certos tipos de merda.”

No mesmo ano ‘eu me odeio’, ela oficialmente deixou a escola para construir sua carreira (ela começou com um papel na TV com 9 anos), alcançando a maturidade diante de nossos olhos em filmes como O Quarto do Pânico e na Saga Crepúsculo. “Eu tinha 17 anos quando estava fazendo Crepúsculo. Foi a primeira vez que eu viajei sozinha. Eu estava tipo, ‘finalmente’.” Ela adorou a autonomia, porque ela nunca se sentiu como uma criança em primeiro lugar: “Quando eu era mais nova, eu realmente queria ficar com os adultos, para ser tratada como uma. Eu era a criança mais aberta, avançada e confiante. Ainda estou tentando voltar pra isso.” Precoce, ela sente os efeitos de qualquer forma de mimo. “Eu sempre fui tipo, ‘estou bem, estou bem’, muito antes de estar.”

Em retrospecto, ela pode ter lidado com as coisas que incomodavam ela de forma diferente. “Havia coisas que eu não contava para a minha mãe quando eu tinha 5 anos, que se eu apenas tivesse falado ‘Eu estou tão assustada com isso,’ ela teria dito ‘não fique, não é grande coisa.’ E então eu teria ficado, ‘oh, entendi.’ Eu vou estar insistindo com meus filhos, ‘diga-me o que aconteceu, fale comigo.’ Sabendo que pode ter alguma coisa que eu poderia dar conta facilmente para eles, mas eles precisam te dizer.”

Apesar de seu “objetivo nunca foi ser extremamente bem sucedida em termos de dinheiro e reconhecimento,” seu trabalho da adolescência lançou Stewart direto para a A-List. Com sucesso global e exposição veio um novo nível de bullying e humilhação.

“Quando eu conheci Kristen, nós estávamos fazendo Lua Nova,” lembra a atriz Dakota Fanning, que também interpretou a cantora Cherie Currie para Joan Jett de Stewart em The Runaways (2010). “Todo mundo é mal compreendido. Mas foi em um outro nível com Kristen. Naquela época, percebia que ela não se importava. Mas conhecendo ela, eu sabia que ela se importava demais. Isso chateava ela, as pessoas pensando que sabiam quem ela era.”

“Entre meus 15 e 20 anos, foi muito intenso,” Stewart pensa. “Eu estava constantemente ansiosa. Eu era meio louca por controle. Se eu não soubesse como algo ia terminar, eu ficava doente, ou me trancava ou me inibia de um jeito que era muito debilitante.”

Ela pronuncia a última palavra com exasperação e explica que ela só está aprendendo agora, após 16 anos na indústria, a administrar o trem em alta velocidade de seu cérebro, para construir limites emocionais saudáveis, para saber o que ela não sabe.

“Em certo ponto, você apenas deixa pra lá e se deixa viver sua vida. Eu finalmente administrei isso e consigo muito mais da vida,” ela diz. “Eu vivi bastante para uma pessoa jovem, e eu fiz isso comigo mesma – mas eu cheguei na outra saída não mais fechada, mas forte. Eu tenho uma habilidade de perseverar que eu não tinha antes. É como quando você cai de cara muito forte.” Ela bate suas mãos juntas. Smack! “E na próxima vez, você fica tipo, ‘Sim, e então? Eu já caí de cara antes.'”

“A coisa sobre Kristen é que, qualquer coisa que ela faz, ela vive, come e dorme por isso,” explica Fanning. “Nunca é ‘oh, isso pode ser legal.’ Ela está sempre dentro.”

Com seu próximo filme, American Ultra, dirigido por Nima Nourizadeh (Projeto X) e co-estrelando Jesse Eisenberg, Stewart traz sua intensidade para a comédia pela primeira vez. Ela não está tão preocupada em ser muito engraçada enquanto celebra que “esse é o primeiro filme que eu fiz em muito tempo que é apenas engraçado pra caralho.”

Eisenberg conhece Stewart desde que ela tinha 17 anos, quando os dois estavam no elenco de Adventureland em 2009. “Kristen é mais auto-consciente do que a maioria das pessoas que você vai conhecer na idade dela,” ele diz. “Ela está em uma profissão onde você é feito para se questionar, mulheres mais do que homens. Ela sempre foi muito intuitiva. Nós compartilhamos uma demissão de pretensão. E nós dois levamos muito a sério o que fazemos.”

Embora ela esteja tentando afastar o drama gratuito de seu mundo, Stewart não abandonou totalmente seu lado emo. Ela ainda lê e escreve poesia. Ela ainda chora ao ouvir Van Morrison. “Eu costumava me envergonhar sobre como eu choro o tempo inteiro,” ela diz. “Agora, eu acho que é um dom poder sentir as coisas.”

Embora a falta de compreensão ainda irrite ela – “Eu estou sempre dizendo coisas que não quero dizer. Tipo, ‘oh meu Deus, isso saiu errado. Isso soou estúpido.'”Stewart alcançou a paz com sua imagem pública. Mais criticamente, ela alcançou a paz com si mesma.

“Eu precisei levar uns tapas algumas vezes para aprender essa lição. Mas eu não trocaria, para ser honesta,” ela diz sorrindo. “Eu estou realmente orgulhosa de conseguir seguir em frente e não cair em cada cratera mental. Isso é uma coisa nova para mim. A idade me fez mais inteligente e mais calma. E isso é incrível pra caralho.”

Após terminar seu jantar, Stewart observa o horizonte de Atlanta. Ela tira seu cabelo, extensões colocadas para Billy Lynn, de sua testa com certa irritação. No filme, baseado no livro de Ben Fountain, ela interpreta a irmã de um soldado no Iraque, Billy Lynn (o novato Joe Alwyn), que está em uma turnê de vitória de volta para casa, no Texas.

“Eu cortei meu cabelo quando fiz 23,” ela diz. “O efeito foi surpreendente.” Quando pedi para elaborar, suas palavras não poderiam ter vindo mais rápidas. “Meu cabelo era como uma muleta. Eu parecia “sexy”, não importava a situação. Eu podia me esconder por trás dele. Quando eu não tinha mais todo aquele cabelo, eu tive que deixar meu rosto aparecer. Eu me senti mais confiante do que já tinha me sentindo em muito tempo. E foi muito bom. Foi como não ter seu iPhone por alguns meses. Foi o mesmo sentimento de libertação. Parece muito óbvio, mas foi como se meu cabelo me fizesse sentir como uma ‘garota de verdade’. Como se eu fosse bonita e feminina. Eu não sei por que eu valorizava tanto isso, como se eu tivesse que provar algo.”

Stewart respira fortemente, pressiona. “Todo cara em minha vida, homens que eu respeito,” ela diz apontando para as extensões, “estão me dizendo ‘Deus, Kristen, você está ótima agora’. É tipo, wow.”

“Talvez para a maioria das pessoas, o cabelo logo é mais bonito,” ela admite. “Mas e então? O seu objetivo na vida é ser desejável? Isso é entediante pra caralho.”

Está ficando tarde, e Stewart tem que acordar cedo. Enquanto ela desliza de seu banco do bar, uma barata passa por ela. Ela se assusta, e então observa o inseto do tamanho de seu dedão, inclinando a cabeça para uma inspeção mais perto. “Nós não temos baratas grandes assim na Califórnia,” ela observa maravilhada. Uma garçonete se aproxima e pergunta se Stewart “vai matar?”

“Oh, não,” Stewart suspira. “Digo, por que eu faria isso?” Ao invés disso, ela gentilmente desvia. E então ela segue em frente com passos avançados, sem se preocupar em olhar para trás.

Palavras escolhidas

Sobre responsabilidade: “Meu prato nunca está limpo. Eu gosto de pressão. Eu estou constantemente me pondo em situações inacreditavelmente desconfortáveis para ver se consigo passar por elas.”

Sobre fingir: “Eu sinto que esse é o único jeito em que sou boa em qualquer coisa. Eu jogo golf muito bem. Eu faço a melhor imitação de Tiger Woods que posso, e de repente, minha jogada é totalmente certa.”

Sobre o melhor conselho que ela já recebeu:Patti Smith me disse para sempre cuidar dos meus dentes e pulmões.”

Sobre sua ideia de inferno: “Um jantar com pessoas erradas. O aeroporto, o que é um saco, porque costumava ser um dos meus lugares favoritos do mundo para sentar e observar as pessoas.”

Sobre escrever músicas: “Eu toco violão e bateria, mas eu não combinei a coisa toda da música e da poesia. Eu acho que sou muito intimidada, e se eu não fizer algo muito bem, então eu não quero fazer.”

Sobre quem ela inveja: “Eu invejo muito as pessoas que sabem dançar. Eu estava em um bar drag em Seoul com Isabelle Huppert, que sabe dançar. E eu não. E eu estava tipo, ‘levanta essa bunda. Dance.’ E eu apenas não conseguia.”

Fonte | Tradução: Mari – Equipe Kristen Stewart Brasil